Um viva à quinta série!

A quinta série era um momento marcante para a minha geração. O momento em que, na escola, você deixava de ter apenas uma “tia” e passava a ter uma professora por disciplina - e também disciplinas novas a desvendar. Nos sentíamos mais perto da adolescência, mas a nossa natureza pueril nos permitia gostar disso sem angústias, medos ou inseguranças. Mal sabíamos que, quando a adolescência chegasse de verdade, já não seria desse jeito e não a conseguiríamos aproveitar com tanta leveza. 

Éramos crianças que começavam a expandir o olhar. Nos considerávamos muito espertas, porque nem mesmo tínhamos maturidade para perceber a nossa imaturidade. 

É interessante que essa fase é tão marcante que algumas pessoas ficam presas nela. Mesmo depois de adultas, quando confrontadas, instintivamente reagem com aquela mesma mentalidade, achando-se maduras ao dizer algo como “eu tenho, você não tem”, “foi pro ar, perdeu o lugar”, “ achado não é roubado, quem perdeu é relaxado” - logicamente, falam isso de outras formas, em outros contextos, mas os sentimentos que as movem por trás são os mesmos.

Isso acontece nos relacionamentos e no contexto profissional. Outras palavras, mas com aquela mesma falta de noção. Para crianças, é aceitável; para adultos, ridículo. Mas só aos olhos de quem conseguiu superar a quinta série. Eles, por sua vez, continuam achando-se espertos - e muitas vezes são até aplaudidos, porque a comunidade da quinta série continua por aí. 

Eu deixei de ter paciência. Prefiro andar com quem sabe analisar dados, interpretar contexto, responder às situações diversas com maturidade e, claro, faz terapia.      

Mas não subestime a quinta série. É por volta dela que as meninas aprendem uma regra muito importante, que convém levar para a vida toda: não se mexe com o menino que a amiga gosta. Mesmo se for ex. Mesmo que ela diga que não se importa - e que pareça, de fato, que não se importe. Seria como andar num campo minado.  

Isso porque apenas entenderíamos o que ela realmente sente na hora em que a situação acontecesse. Poderia até ser possível transitar por ali sem pisar numa mina. Mas, às vezes, ao dar um passo que parecia inofensivo, você ouve o click. E, nesse momento, já não há mais o que fazer: não adianta tentar tirar o pé, querer voltar atrás. Talvez nem ela mesma acreditasse que havia chance de ter uma explosão. Só que agora já é tarde demais. E homem nenhum vale a perda de uma amiga.  

Portanto, é importante lembrar os ensinamentos daquela época, mesmo depois de crescida. Só cuidado para não ficar encolhida com a sua cabecinha dos dez anos de idade. Era fofo só lá atrás...