Salvando as próximas gerações

No artigo da semana passada, falamos sobre o triste feminicídio da colega Raquel Ribeiro. A discussão que se seguiu nos comentários trouxe importantes ideias sobre o que podemos fazer para combater a violência contra a mulher. Hoje convido vocês a conversarmos sobre um dos assuntos levantados por lá: estamos educando as próximas gerações para que elas não reproduzam essa lastimável realidade quando crescerem?
Tomemos como ponto de partida o comentário da colega Cristiane Matos da Costa:
" [...] [É preciso] ensinar nossos filhos como perder num jogo, mostrar que a vida é de ganhos e perdas, saber ganhar e saber perder, se solidarizar com o próximo tão raro hoje. Escandalizamos mais do que nos solidarizamos. [...]"
Para começar, sugiro pensarmos nessa questão indo além dos nossos próprios filhos, contemplando também as demais crianças com quem convivemos. Nem todas temos - ou teremos - filhos, mas todas podemos mudar nosso comportamento em relação a sobrinhos, primos, filhos de amigos etc.

Todas devemos concordar que queremos que nossas crianças sejam felizes. E também que, para isso, elas precisam saber ganhar e perder.
Mas como nós temos ajudado nesse aprendizado no dia-a-dia? Basta simplesmente conversarmos com a criança quando ela está triste por uma perda, tentando ensinar que isso faz parte da vida? Ou será que se trata de um aprendizado muito mais complexo, e que muitas vezes o nosso próprio comportamento ensina o contrário?

A contradição começa quando, na sociedade extremamente competitiva que vivemos, muitas vezes para a pessoa ser feliz (que é o que queremos), ela precisa ser "a vencedora". Exemplos simples: para entrar numa faculdade, precisamos ser melhores que os outros; o mesmo num concurso público; o mesmo para sermos promovidos no trabalho. Nós queremos que elas vençam, que alcancem seus objetivos.
Isso quer dizer que temos de ensiná-las a perder quando, na verdade, não queremos que elas percam de fato. E é aí que nós, no dia-a-dia, podemos perder o equilíbrio.

Perdemos o equilíbrio quando, por exemplo, vamos à escola brigar com o professor porque achamos que nosso filho foi injustiçado de "n" maneiras. Concordo que existem situações em que os pais devem intervir, mas vejo várias outras em que os pais estão simplesmente superprotegendo as crianças/adolescentes ou fazendo seus caprichos. Ou mesmo sendo orgulhosos e não admitindo que seus filhos passem por algo - mesmo que seja uma punição justa por um comportamento inadequado.

Na vida muitas coisas não são como a gente quer, e nós não podemos simplesmente sair lutando em defesa dos filhos toda vez que eles forem contrariados - porque fazendo isso estamos justamente ensinando que eles não podem ser contrariados. Faz sentido? Façamos uma honesta autoanálise (ninguém está vendo): quantas vezes fazemos isso, consciente ou inconscientemente?
Quantas vezes impedimos que nossos filhos se sintam frustrados? Como eles aprenderão a lidar com a frustração se não lhes damos essa oportunidade?

Particularmente, eu percebi que precisava adequar o meu comportamento como mãe em algumas situações e tenho tentado fazer isso (não é fácil!). Especialmente em relação a poupar minha filha de tudo que considero negativo.
Entendi também que meu exemplo é a melhor forma de ensiná-la a lidar com algo que não acontece como a gente quer. Sobre isso, compartilho com vocês algumas reflexões:

Reflexão 1:

Como posso ensinar pelo exemplo se eu escondo (ou deixo de compartilhar) com ela algumas situações em que me frustro, em que as coisas deram errado, quando só mostro o que é legal, aquilo em que tive sucesso?

[Questão importante: não estou dizendo que se deve compartilhar todas as frustrações da vida com os filhos, pois isso seria muito prejudicial a eles!]

Um exemplo prático: nas Mini-Olimpíadas da Ditec de 2015, competi numa prova de revezamento de natação para que minha Gerência não perdesse por WO. Como só havia mais duas equipes inscritas, terminar a prova garantiria a medalha de bronze. Existia, entretanto, um pequeno detalhe: eu não sei nadar de verdade! Eu consigo me deslocar na água, consigo 'não morrer afogada'. Mas existe uma enorme distância entre o nado de sobrevivência e atravessar uma piscina nadando crawl! Mesmo assim, pelo espírito de equipe, fui. Lembro da cena muito bem: fui a última da equipe a cair na água. Quando alcancei a parede na metade da prova, eu já tinha engolido uma quantidade considerável de água (sério!). A essa altura, as demais equipes já tinham terminado: só havia eu na piscina e a arquibancada gritava palavras de incentivo. Nem sei descrever o desespero ao ver que ainda tinha de nadar todo o trajeto de volta. Mas respirei fundo e segui com meu nado honestamente ridículo, parando de tempos e tempos (para respirar e não morrer). Terminei a prova em último. Minha filha tinha 8 anos e estava lá assistindo e torcendo por mim. Na volta para casa, ela disse: "Mamãe, até que você foi bem para a primeira vez" (bonitinha! - e ela sim é uma excelente nadadora, nada desde os 3 meses de idade).

Levamos para casa conosco uma medalha de bronze (de plástico, na verdade) que significava:
- não importa você ter sido a última, importa que você foi e que você não desistiu;
- você não precisa ser boa em tudo, muito menos a melhor em tudo; (mulheres, lembrem-se disso!)
- tudo bem perder (no caso, tem também o "tudo bem pagar mico na frente dos colegas de Banco")
Quer dizer, nem precisava ter tido medalha para ter valido à pena. Tenho certeza que ela aprendeu muito mais nesse dia do que com as minhas palavras de consolo em outras ocasiões.

[Questão importante: "saber perder" é diferente de "querer perder". É importante incentivar seu filho e mostrar que acredita nele.]     


Reflexão 2:

Como quero que meu filho entenda que está tudo bem perder, se quando acontece comigo eu reajo muito mal? Já viram adulto que faz birra, que desqualifica (e odeia) a fonte de sua frustração? Já fiz isso várias vezes, confesso.

No ano passado, coleguinhas da minha filha na escola destilavam ódio à então presidenta Dilma Roussef, falavam que queriam que ela morresse. É isso mesmo que devemos ensinar a nossas crianças? Que se alguém está "atrapalhando" o que queremos, nós devemos ser violentos - vide apologia a estupro e morte? Não é EXATAMENTE isso que leva à maior parte dos feminicídios? A questão aqui não é apoiar ou não um presidente, isso é uma decisão individual e temos liberdade e direito de escolher nosso posicionamento. Me refiro à educação por exemplo: o que educa é a prática, não o discurso de respeito.      


Reflexão 3:

No comentário da Cristiane, ela falava sobre ensinar a solidarizar-se com o próximo. "Escandalizamos mais do que nos solidarizamos." - frase muito verdadeira. Acho que, mais uma vez, todas concordamos que isso é muito importante. Com certeza falamos sobre isso com nossos filhos muitas vezes. Mas... e na prática?

Pensem numa festa de aniversário infantil, no momento tão esperado de estourar o balão surpresa. É de cortar o coração ver a tristeza da nossa criança quando não consegue pegar nada. Então conversamos com ela, explicamos que ela precisa se esforçar mais da próxima vez, "se jogar", fazer sua parte, senão ficará sem - igualzinho na nossa sociedade competitiva, não é mesmo?

Só que, ao fazer isso, apesar dela ficar feliz ao final, é possível que ela, literalmente, tire doces e brinquedos da mão de outra criança. É possível que, sem querer, ela acabe machucando alguém. É possível que ela fique com muito e alguma criança fique sem nada. Nesse caso, como nós intervimos? Qual o nosso sentimento?
Ficamos felizes que nosso filho/irmão/sobrinho/etc é esperto e pegou um monte de coisa? Felizes por ele ter ficado feliz? Felizes por ele ter superado uma limitação anterior? Justo.
Mas e depois disso? Fazemos com que ele peça desculpas para a criança que ele machucou sem querer durante a brincadeira? Ou achamos isso desnecessário, porque esses "acidentes" fazem parte do jogo? Ensinamos que ele olhe para o lado e identifique as crianças que ficaram tristes e dividam com elas o que conseguiram pegar? Ou achamos que os outros devem ficar sem nada mesmo para aprenderem a ser mais espertos da próxima vez? Lembrando que meritocracia e solidariedade são conceitos que nem sempre combinam.

Eu sei que não é fácil olhar criticamente para nós mesmos, até porque tenho certeza que cada um de nós faz o melhor que pode, em especial em relação às pessoas que amamos.
Mas quando falamos em mudanças, não podemos esperar que apenas os outros mudem, sem fazer a nossa parte.

Estamos discutindo uma mudança que, por ser cultural, é ainda mais lenta e difícil de ser feita: o machismo e a violência contra a mulher. Não dá pra fazer isso sem reflexão. Não dá para fazer isso sem autoanálise.


O machismo, assim como outras mazelas sociais, não está apenas no outro, não está no corredor, do lado de fora das nossas casas. O machismo está dentro de todos nós, arraigado. E, acreditem, ele não vai desaparecer simplesmente porque a gente quer. É preciso lutar. E essa luta precisa acontecer internamente também.

E você? Como acha que podemos preparar melhor as gerações futuras para mudar essa realidade?


Este texto foi publicado originalmente em minha coluna no Blog Bancárias no Poder, na intranet corporativa da empresa em que trabalho, em 20 de dezembro de 2017. Os comentários a que se refere estão na intranet e, portanto, não podem ser consultados por pessoas de fora. As opiniões político-partidárias, quando houver, refletem as opiniões da colunista, não necessariamente do Blog Bancárias no Poder, da comunidade Bancárias no Poder ou de suas administradoras.

Ana Shah é analista de TI na Diretoria de Tecnologia de uma grande empresa do mercado financeiro. Pedagoga apaixonada por Educação, blogueira, mãe, voluntária, entusiasta do software livre e interessada por tudo relacionado à cultura indiana. Escreve também os blogs Amor Indiano e Animando-C (luta contra hepatite C) e para outros sites que você encontra no menu deste blog.  

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