Bancárias de luto



Nesta segunda-feira, perdemos a colega Raquel Ribeiro, de Santa Margarida (MG), vítima de feminicídio: https://noticias.r7.com/cidades/gerente-de-banco-e-morta-com-36-facadas-em-santa-margarida-mg-12122017

Sei que alguns ainda conseguirão uma forma de culpar a vítima, por exemplo: "vai namorar com servente de pedreiro, dá nisso..." Cuidado com os julgamentos (e a discriminação)! Não existe um "perfil" de homem que comete esse crime: eles estão em todas as profissões, todas as classes sociais, sentados ao nosso lado ou, quem sabe, dormindo na nossa cama. Muitas vezes, são os próprios familiares (50,3%) ou parceiros/ex-parceiros (33,2%) os que cometem os assassinatos. Nós não acreditamos que isso pode acontecer. Mas acontece - e muito mais frequente do que se imagina.

O Brasil está entre os países com maior índice de homicídios femininos: ocupa a quinta posição em um ranking de 83 países, segundo dados do
Mapa da Violência 2015 (Cebela/Flacso). “Essa situação equivale a um estado de guerra civil permanente.” - diz Lourdes Bandeira, socióloga, pesquisadora e professora da Universidade de Brasília.

Eu sempre converso seriamente com minhas amigas para que, em qualquer situação de violência (física ou emocional), se sentir-se perseguida ou invadida de alguma forma, liguem para o 180 para conversar. Mas qual o termômetro? Como saber se realmente existe algum risco, se não estamos exagerando? O termômetro é o SEU sentimento. Ligar não custa nada, nem vai causar dano algum à pessoa que lhe está causando transtorno: não é uma denúncia em si - apesar de que você também pode formalizar uma denúncia se achar que deve.

Quem vai atender você é uma pessoa treinada para isso, e ela vai saber lhe orientar. Se você estiver exagerando, eles vão lhe dizer. Melhor pecar pelo excesso. Tenho o caso de uma amiga que, após a conversa no 180, escreveu um longo email para o ex-namorado relatando tudo o que havia ouvido, deixando bem claro todas as implicações que ele poderia ter se continuasse com aquele comportamento de perseguição. Ele nunca mais a procurou, e acabou a tortura psicológica e sofrimento.

Claro que nem todos os casos são tão simples, que nem todos os agressores têm bom senso. A Raquel tinha uma medida protetiva contra o assassino, que estava impedido de se aproximar dela. Ela mudaria de cidade na semana seguinte. Mas isso não foi suficiente para protegê-la.

Eu chorei ontem pela Raquel. Chorei pela filha dela de 8 anos, que foi quem achou o corpo da mãe. Chorei também por mim e pela minha filha. Não dá para aceitar uma coisa dessas!

E o que a gente pode fazer, eu e você? Para começar, a gente pode - e deve -  falar sobre isso. Não silenciar, não achar normal, não "deixar passar". Precisamos, ao menos, reconhecer que o problema existe, é grave, e pode atingir a todas nós. Precisamos conhecer os mecanismos de proteção. Precisamos educar nossos filhos meninos para que sejam diferente disso - e não é ignorando o assunto que o faremos. Precisamos apoiar as mulheres ao nosso redor. O que mais vocês acrescentariam a essa lista?

Para terminar, queria trazer a descrição de feminicídio da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher (Relatório Final, CPMI-VCM, 2013), porque ela desvela muitas coisas sobre as quais precisamos refletir.

“O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.” O que dizer?

Como eu não tenho mais palavras, vou deixar que vocês falem. Ocupem os comentários, usem os espaços que tiverem acesso... simplesmente não "deixem passar"...

Sentimos muito, Raquel.

 

Algumas fontes consultadas:
http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/violencias/feminicidio/
https://nacoesunidas.org/onu-feminicidio-brasil-quinto-maior-mundo-diretrizes-nacionais-buscam-solucao/
https://estilo.uol.com.br/noticias/redacao/2017/10/14/feminicidio-estados-ainda-nao-divulgam-assassinatos-contra-mulheres.htm

 

Este texto foi publicado originalmente em minha coluna no Blog Bancárias no Poder, na intranet corporativa da empresa em que trabalho, em 14 de dezembro de 2017. As opiniões político-partidárias, quando houver, refletem as opiniões da colunista, não necessariamente do Blog Bancárias no Poder, da comunidade Bancárias no Poder ou de suas administradoras.

Ana Shah é analista de TI na Diretoria de Tecnologia de uma grande empresa do mercado financeiro. Pedagoga apaixonada por Educação, blogueira, mãe, voluntária, entusiasta do software livre e interessada por tudo relacionado à cultura indiana.
 


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