Assassinas silenciosas

Temos discutido nesta comunidade vários riscos a que somos submetidas simplesmente por sermos mulheres. Falaremos hoje sobre um risco de saúde ao qual poucas sabemos que estamos expostas: as hepatites virais. Esse não é um problema exclusivo de mulheres, mas devido a algumas questões que veremos a seguir, muitas mulheres foram expostas ao vírus e nem sabem disso. Aconteceu comigo e pode acontecer com você.


Para começar, é importante entender que as hepatites virais matam, especialmente as causadas pelos vírus B e C.

Sabe por que elas são conhecidas como "assassinas silenciosas"?

Porque a maior parte das pessoas infectadas nunca apresentaram nenhum sintoma.

"Isso quer dizer que posso estar infectada sem saber?" Sim.
"Mas eu faço exame periódico todos os anos..." As hepatites B e C não aparecem em exames comuns, apenas se solicitados seus exames específicos.  

Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma a cada 12 pessoas no mundo está infectada. No Brasil, estima-se que um a cada 30 brasileiros seja portador dos vírus da hepatite B ou C. Os números são alarmantes. Mais ainda após a seguinte informação: mais de 90% dessas pessoas ainda não foram diagnosticadas.

A boa notícia é que ambas as doenças possuem tratamento fornecido pelo SUS. O problema é que as pessoas às vezes levam décadas para descobrir que estão infectadas, podendo ser diagnosticadas tarde demais. O vírus ao longo dos anos pode causar um estrago irreversível no fígado, que pode culminar em cirrose ou câncer. Nesses casos, o tratamento já não é mais eficaz e a única saída pode ser um transplante hepático.    

Como se pega hepatite B e C?

Basicamente no contato com sangue contaminado. Às vezes não pensamos muito nisso, mas passamos por diversas situações na vida em que podemos ter sido expostos, tais como:
- dentista
- exame de endoscopia
- tatuagem e piercing
- manicure
- seringas de vidro de antigamente

A hepatite B ainda é transmitida sexualmente, 100 vezes mais facilmente que o HIV.

Apesar de todos nós estarmos expostos a esse risco, existem grupos de pessoas que devem fazer o exame imediatamente, pois estão no grupo de maior prevalência. São elas:
- pessoas que receberam transfusão de sangue antes de 1992
- pessoas que usaram drogas injetáveis ou inaláveis, mesmo que apenas uma vez
- pessoas que fazem hemodiálise
- filhos de mães portadoras de hepatite B e C (pode haver transmissão no parto)
- esportistas de algumas modalidades (como jogadores de futebol) nas décadas de 70 e 80, que recebiam injeções de vitaminas no vestiário com seringa compartilhada.

 

Por que no início do post falei sobre o risco às mulheres?

Não só pelo hábito de fazer as unhas em salão e nem sempre ter o cuidado de levar seu próprio kit manicure. Mas também porque até o início da década de 90 tinha-se a mania de fazer transfusões após cirurgias, para deixar o paciente "mais forte". Isso quer dizer que muitas mulheres que fizeram cesariana naquela época foram submetidas à transfusões desnecessárias. Com isso, temos uma geração de mães e avós contaminadas especialmente com a hepatite C. 
Para vocês terem uma ideia, nos Estados Unidos considera-se como parte do grupo de risco qualquer pessoa com mais de 45 anos.
Quer dizer que os mais novos não têm risco? Têm (eu mesma não tenho nem 40 ainda). Mas a maior parte das pessoas foi infectada na década de 80 e início da década de 90, quando ainda não existiam mecanismos de prevenção como a testagem do sangue doado para transfusão e disseminação de aparelhos de autoclave para esterilização.  

A minha história:

Quando eu tinha 8 anos de idade, tive uma pneumonia causada por uma super bactéria. Os médicos disseram que minhas chances de sobrevivência eram zero  poucas. Fui submetida a uma cirurgia em que dois terços do meu pulmão esquerdo foram retirados. Depois da cirurgia, precisei de uma transfusão de sangue e recebi um pacotinho de sangue "premiado" com o vírus da hepatite C. Naquela época, nem existia hepatite C para a Ciência ainda.  
Passei vinte anos sem ter nenhum sintoma da doença. Aliás, nunca senti nada, nem antes nem depois de diagnosticada. Descobri por puro acaso.
Não pensem que foi fácil receber esse diagnóstico aos 25 anos de idade. Era como se minha vida tivesse acabado. Os relatos na internet são aterrorizantes. E eu ainda tinha tantos sonhos! O maior deles era ser mãe. De repente, era como se o chão se abrisse embaixo dos meus pés.
Três anos depois, quando enfim recebi indicação para o tratamento, passei seis meses tomando uma injeção por semana e remédios diários. Os medicamentos tinham efeitos colaterais muito agressivos, como uma quimioterapia, o que significa que passei mal 24 horas por dia durante todo esse tempo. Teimosa, não deixei de trabalhar: tomava a injeção na sexta à tarde, caía de cama na sexta à noite, ficava na cama sábado-domingo-segunda, e terça-feira ia trabalhar. Perdi muito peso - e metade dos cabelos. Estava sempre fraca. Muitas vezes não conseguia nem dirigir de volta para casa.
E depois desses seis meses... o tratamento fracassou. Por muitos anos, eu terminava essa história dizendo que a Medicina não dispunha de nada que pudesse me ajudar, mas que eu não perderia a fé.
Quatro anos depois, eu estava no primeiro lote de pacientes tratados com os novos anti-virais contra a hepatite C. E hoje eu posso dizer, com lágrimas nos olhos, que estou curada!

Foi mais de uma década de luta. Durante todo esse tempo, eu pesquisava muito sobre tratamentos alternativos e todas as novas drogas em estágio de pesquisa. Participei ativamente de campanhas do Ministério da Saúde e criei as minhas próprias. Mandei carta para deputado, senador, ministro e até para a Dilma. Participei de eventos de ongs e de manifestações públicas. A luta não era só por mim, e é por isso que ela continua...
   
Precisamos diagnosticar os milhões de infectados que estão por aí sem nem desconfiar que vivem com uma bomba relógio dentro do organismo. Precisamos dar a eles a chance de um final feliz. Nesses anos todos, eu vi muitos companheiros de luta morrerem. Não me conformo com isso. Não me conformo que ainda perderemos muitas outras pessoas. Não me conformo que essas mortes poderiam ser evitadas com informação.

Por isso peço a ajuda de vocês: quanto mais pessoas disseminarem essas informações, mais chances temos de salvar vidas.

O que você pode fazer?

1. Se você nunca fez um exame de hepatite B e C, ou se não tem certeza, peça esses exames na próxima consulta médica. A Cassi cobre.
2. Converse com amigos e familiares, estimule-os a fazerem o exame também.
3. Previna-se! Esteja atenta às situações de risco. Algumas medidas importantes:

- Leve seu próprio kit à manicure (inclusive o palitinho),
- Certifique-se da adoção das medidas de segurança em clínicas estéticas, procedimentos médicos/odontológicos, estúdios de tatuagem etc
- Use preservativo nas relações sexuais (para prevenir a hepatite B e muitas outras doenças, como o HIV e HPV)
- Tome as três doses da vacina da hepatite B. É gratuita nos postos de saúde. Se você não tem certeza se já tomou, faça um exame de anticorpo da hepatite B para testar. Infelizmente, ainda não existe vacina contra a hepatite C.


Se quiser mais informações, acesse o blog Animando-C. Ele tem esse nome por ter como objetivo abordar a hepatite C de forma otimista. É o local de acolhida das pessoas que chegam desesperadas após lerem algumas informações disponíveis na internet. Tudo baseado em pesquisas científicas e feito com muito amor e carinho. A hepatite C é uma doença grave, mas tem cura. E a informação, mais do que nunca, é poder!   


PS: E o meu maior sonho? Minha Amanda tem hoje 10 anos de idade. Nasceu quando eu ainda estava infectada, mas graças a Deus não tem a doença. 


Este texto foi publicado originalmente em minha coluna no Blog Bancárias no Poder, na intranet corporativa da empresa em que trabalho, em 27 de dezembro de 2017. As opiniões político-partidárias, quando houver, refletem as opiniões da colunista, não necessariamente do Blog Bancárias no Poder, da comunidade Bancárias no Poder ou de suas administradoras.

Ana Shah é analista de TI na Diretoria de Tecnologia de uma grande empresa do mercado financeiro. Pedagoga apaixonada por Educação, blogueira, mãe, voluntária, entusiasta do software livre e interessada por tudo relacionado à cultura indiana. Escreve também os blogs Amor Indiano e Animando-C (luta contra hepatite C) e para outros sites que você encontra no menu deste blog.  

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