Como o Facebook me fez desistir da Humanidade

Corpos em campo de concentração nazista na Alemanha (Corbis/VEJA)

É verdade que ando ausente das redes sociais. Mas está tudo bem. Ou quase. Apenas redes sociais não fazem muito sentido quando você não quer se relacionar com outras pessoas, o que é o meu caso. Explico melhor abaixo.  

Um dos meus maiores aprendizados desde as eleições de 2014 foi que as pessoas são más e egoístas. Não estou falando do lado A ou B - embora no meu feed fique bem claro qual é o lado que cospe ódio. 

Estou falando de como as pessoas são mesquinhas. O quanto não se importam por compartilhar mentiras desde que elas lhe convenham, ou seja, corroborem suas teses sem fundamento. 

O que me leva ao segundo aprendizado: as pessoas não estão preocupadas com a verdade. Elas têm a sua opinião e refutam a lógica e a coerência em nome de provar que estão certas. Isso é doentio. Sim, as pessoas estão doentes. 

Antigamente, as pessoas se preocupavam em ser (ou parecer?) inteligentes e boas. Hoje isso está fora de moda: "O que importa se isso que estou falando é a maior idiotice do Universo? Essa é a minha opinião e ela vale mais que a razão". Convenhamos que, atualmente, as opiniões valem mais até do que a lei. 

Compartilho com vocês um diálogo que ocorreu em 2016:
 - Você é advogada, você sabe que não há base jurídica para o impeachment.  
- O que você não entende é que isso é um julgamento político e não jurídico. 
E eu, tolinha, achando que vivíamos num País onde as leis deviam ser respeitadas, ao menos pelos legisladores! 

Isso me leva ao meu terceiro aprendizado: as pessoas cagam para as leis (desculpem a palavra, mas não existe uma expressão melhor). Eu já devia saber disso pela observação do dia-a-dia, onde a lei da vantagem supera as demais (jurídicas e morais). 

Todos os dias eu quase bato meu carro simplesmente porque os motoristas que passam naquela pista ignoram completamente a placa de PARE. Eles mudaram o significado da placa PARE para "Dê a preferência" - que eu aprendi na autoescola que era outra placa. Agora PARE não significa mais parada OBRIGATÓRIA, mas "vai diminuindo a velocidade para ver se dá tempo de passar e, se der, toca a ficha". Para outros significa: "essa placa de PARE aqui é para os fracos e não se aplica a mim, o sabidão do Universo". 

Fico impressionada com o quanto é importante para as pessoas economizarem 5 segundos de vida no trânsito, ao mesmo tempo em que gastam horas tentando convencer os outros que eles são burros e ridículos (os outros, claro) - o que faz delas, no mínimo, burras e ridículas. 

"Mas com este artigo você não está fazendo exatamente o mesmo? Julgando que as pessoas são burras e ridículas?"

Se você pensou isso, é porque se sentiu ofendido com minhas palavras. Se você se sentiu ofendido com as minhas palavras, é porque se identifica com o perfil descrito. Sendo assim, pense o que quiser, pois não há argumentos no mundo que façam você ao menos considerar o ponto de vista do outro, quissá mudar de ideia. 

Talvez você se identifique com o texto abaixo também e, ao final deste artigo, conclua que o Hitler até que era um cara de bem e você votaria nele.

Aliás, quando eu vejo as pessoas que marcham ao lado dessas autodenominadas "pessoas de bem", cada vez me convenço mais de que estou do lado certo. Aquele cara barbudo nunca estaria ali (estou falando de Jesus). Mas ainda dizem que quem vai queimar no inferno sou eu...

Entrevista com Robert Gellately à Revista Veja - uma fonte considerada confiável pelas pessoas de bem. Segundo a Veja, Gellately é um renomado professor de história da Universidade Estadual da Flórida. 

Como o senhor chegou à polêmica conclusão de que grande parte dos alemães tinha uma imagem clara das atrocidades nazistas? Entre 1933 e 1939, a maioria dos cidadãos sabia sobre os campos de concentração e a Gestapo (polícia secreta do regime nazista), simplesmente porque se podia ler abertamente sobre o assunto na imprensa. Conhecendo o mito “nós não sabemos de nada”, fiquei chocado com a quantidade de material que era publicado na imprensa local, regional e nacional. Muito do que aconteceu estava ali – as pessoas apenas ignoravam por rejeitar a informação. Isso porque o regime nazista não ameaçava todos os alemães, apenas grupos minoritários selecionados, incluindo, claro, os judeus. A grande maioria da sociedade tinha pouco a temer. Já durante a II Guerra, entre 1939 e 1945, as informações eram mais encobertas. Não obstante, um grande número de pessoas estava envolvido diretamente com as ações do governo, e as notícias chegavam a qualquer um que quisesse de fato saber o que acontecia por baixo dos panos. Nesse período, os campos de concentração cresceram, ocupando fábricas distantes dos centros urbanos e também no interior de algumas cidades, tornando-se parte da vida cotidiana das pessoas e, portanto impossível de serem ignorados.

Quanto os alemães de fato sabiam sobre os campos de concentração e a Gestapo? Eles sabiam muito. O regime tinha orgulho de sua nova polícia e a celebrava anualmente no “Dia da Polícia Alemã”. Um bispo católico chegou a se gabar à congregação sobre como um campo de concentração na região tinha dado à área um novo “sopro de vida”. Hitler apostou no apelo popular por meio de um regime baseado no lema “lei e ordem”. Não são poucos os que preferem a repressão em nome da lei e da ordem em toda parte do mundo. E nós sabemos que esses recursos podem ser perigosos para pessoas ingênuas e inocentes. Por isso, o terror trouxe muito mais apoio ao nazismo do que tirou. O regime se vangloriava de sua nova abordagem contra criminosos reincidentes, alcoólatras crônicos, criminosos sexuais, desempregados e mendigos. Hitler prometeu “limpar as ruas”, e a maioria das pessoas aprovou a medida. Algumas acreditavam de fato no Hitler e no nazismo. Outras queriam proteger seu país e lutar como nacionalistas e patriotas. E provavelmente a maioria lutou para manter distantes os russos e os comunistas, que eram amplamente temidos e odiados no país.

De que forma a experiência de Weimar aumentou o apoio popular a Hitler? Weimar produziu impasses políticos e coalizões governamentais – e, depois de 1929, os regimes não se mostraram fortes o suficiente para superar o desemprego. A ditadura de Hitler se livrou dessas lutas entre partidos, das eleições intermináveis e da fraqueza do governo. Inicialmente, o povo queria “dar a Hitler uma chance”, como se dizia naquela ocasião. De fato, foi uma tentação votar nele. Somente depois se descobriu que ele tinha em mente ideias muito mais radicais do que qualquer um poderia imaginar. Mas quando se percebeu o que estava por vir, já era tarde.
‘Apoiando Hitler: Consentimento e coerção na Alemanha nazista’ (Ed. Record, tradução Vitor Paolozzi, 518 páginas, 67,90 reais) (VEJA)

Como a imprensa construía histórias consistentes sobre o regime? A abordagem nazista para o crime, a raça, a polícia, os campos de concentração não eram apenas casuais, irracionais e esquizofrênicas. O regime, na verdade, apresentou medidas racionais consistentes ao público na imprensa e no cinema. A censura – além de deixar de fora judeus e desligar as vozes comunistas e socialistas – não foi martelada a cada dia. As organizações nazistas, incluindo a SS e a Gestapo, sabiam perfeitamente bem o que queriam dizer, mas Joseph Goebbels e seus parceiros tinham em mente que os cidadãos perceberiam se todos os jornais divulgassem notícias idênticas. Então, era dada aos editores uma ideia geral do que o regime decidia que seria noticiado, e cada veículo seguia aquela ideia a sua maneira. O jornal diário do governo, o Voelkischer Beobachter, era o de maior circulação no país e suas histórias eram frequentemente repetidas por outras publicações. A SS também tinha sua própria publicação, igualmente popular. Para reforçar a boa imagem do sistema, Hitler e Goebbels ainda favoreciam e tratavam com condescendência certos escritores, diretores de cinema e outros artistas. Com isso, os filmes que se destacavam elevavam a raça alemã e promoviam o racismo e outros valores nazistas.

Quais “benefícios” o nazismo deu à Alemanha? Até hoje, Hitler é lembrado por ter garantido uma segurança tal que permitia que as mulheres andassem à noite sem medo ou que os cidadãos deixassem suas bicicletas destravadas sem riscos. Todas essas histórias são só parcialmente verdadeiras, mas ajudam a explicar por que as pessoas apoiaram Hitler. Depois de Weimar, os alemães finalmente podiam dar boas vindas a tempos melhores. Hitler lançou mão de programas de ordem pública e investiu no rearmamento do país para a guerra. O que realmente contou para muita gente foi que ele reduziu consideravelmente o desemprego e trouxe de volta ao país seu orgulho – especialmente ao rasgar o odiado Tratado de Versalhes (1919), acordo de paz que representou o fim da I Guerra Mundial e foi considerado uma vergonha nacional, por impor uma série de restrições à Alemanha.

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2 comentários

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5 de junho de 2017 07:09 delete

Mas e que tal pensar (e re-fle-tir) sobre o pensamento de uma presidenta incompetente e de mau gosto fabuloso? [a «Pátria Educadora»]

Que tal PENSAR na ALMA BARANGA de uma presidenta?? rss.
Não seria esse um bom motivo, -- também?

Uma presidentA de mau gosto. Bregona? Baranga mesmo. Kitsch.

Reflita & pense!

"Barangos (as) Unidos Jamais serão Vencidos"

Maria BARANGA Gadu rss;
Otto -- o Bobão; "produtores" culturais; outros barangos; bregas; cafonas mil; todo tipo de mau gosto eternamente chamados de """artistas""" [rsrs], do PT barangões, amantes do petismo: agorinha no "Largo da Batata".

Divulgadores da baixa-cultura; cultura de massas, e lixo musical. Amantes da deusa dilma Iolanda Janeta Pasadena Rousseff -- a brega Coração Valente© [a Baranga de BH]: nesse momento cá no Largo da 🥔 Batata, em Sampa.

Os ditos "artistas" Kitsch. Ruins que dói. Todos a favor de Lula o-chefão-vigarista, da eleição-picareta-direta.

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7 de junho de 2017 09:09 delete

João Luiz, muito obrigada por você brilhantemente exemplificar o que eu dizia neste artigo. Se alguém não havia entendido ainda ao que eu me referia, é só ler o comentário acima.

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