Assassinas silenciosas

Temos discutido nesta comunidade vários riscos a que somos submetidas simplesmente por sermos mulheres. Falaremos hoje sobre um risco de saúde ao qual poucas sabemos que estamos expostas: as hepatites virais. Esse não é um problema exclusivo de mulheres, mas devido a algumas questões que veremos a seguir, muitas mulheres foram expostas ao vírus e nem sabem disso. Aconteceu comigo e pode acontecer com você.


Para começar, é importante entender que as hepatites virais matam, especialmente as causadas pelos vírus B e C.

Sabe por que elas são conhecidas como "assassinas silenciosas"?

Porque a maior parte das pessoas infectadas nunca apresentaram nenhum sintoma.

"Isso quer dizer que posso estar infectada sem saber?" Sim.
"Mas eu faço exame periódico todos os anos..." As hepatites B e C não aparecem em exames comuns, apenas se solicitados seus exames específicos.  

Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma a cada 12 pessoas no mundo está infectada. No Brasil, estima-se que um a cada 30 brasileiros seja portador dos vírus da hepatite B ou C. Os números são alarmantes. Mais ainda após a seguinte informação: mais de 90% dessas pessoas ainda não foram diagnosticadas.

A boa notícia é que ambas as doenças possuem tratamento fornecido pelo SUS. O problema é que as pessoas às vezes levam décadas para descobrir que estão infectadas, podendo ser diagnosticadas tarde demais. O vírus ao longo dos anos pode causar um estrago irreversível no fígado, que pode culminar em cirrose ou câncer. Nesses casos, o tratamento já não é mais eficaz e a única saída pode ser um transplante hepático.    

Como se pega hepatite B e C?

Basicamente no contato com sangue contaminado. Às vezes não pensamos muito nisso, mas passamos por diversas situações na vida em que podemos ter sido expostos, tais como:
- dentista
- exame de endoscopia
- tatuagem e piercing
- manicure
- seringas de vidro de antigamente

A hepatite B ainda é transmitida sexualmente, 100 vezes mais facilmente que o HIV.

Apesar de todos nós estarmos expostos a esse risco, existem grupos de pessoas que devem fazer o exame imediatamente, pois estão no grupo de maior prevalência. São elas:
- pessoas que receberam transfusão de sangue antes de 1992
- pessoas que usaram drogas injetáveis ou inaláveis, mesmo que apenas uma vez
- pessoas que fazem hemodiálise
- filhos de mães portadoras de hepatite B e C (pode haver transmissão no parto)
- esportistas de algumas modalidades (como jogadores de futebol) nas décadas de 70 e 80, que recebiam injeções de vitaminas no vestiário com seringa compartilhada.

 

Por que no início do post falei sobre o risco às mulheres?

Não só pelo hábito de fazer as unhas em salão e nem sempre ter o cuidado de levar seu próprio kit manicure. Mas também porque até o início da década de 90 tinha-se a mania de fazer transfusões após cirurgias, para deixar o paciente "mais forte". Isso quer dizer que muitas mulheres que fizeram cesariana naquela época foram submetidas à transfusões desnecessárias. Com isso, temos uma geração de mães e avós contaminadas especialmente com a hepatite C. 
Para vocês terem uma ideia, nos Estados Unidos considera-se como parte do grupo de risco qualquer pessoa com mais de 45 anos.
Quer dizer que os mais novos não têm risco? Têm (eu mesma não tenho nem 40 ainda). Mas a maior parte das pessoas foi infectada na década de 80 e início da década de 90, quando ainda não existiam mecanismos de prevenção como a testagem do sangue doado para transfusão e disseminação de aparelhos de autoclave para esterilização.  

A minha história:

Quando eu tinha 8 anos de idade, tive uma pneumonia causada por uma super bactéria. Os médicos disseram que minhas chances de sobrevivência eram zero  poucas. Fui submetida a uma cirurgia em que dois terços do meu pulmão esquerdo foram retirados. Depois da cirurgia, precisei de uma transfusão de sangue e recebi um pacotinho de sangue "premiado" com o vírus da hepatite C. Naquela época, nem existia hepatite C para a Ciência ainda.  
Passei vinte anos sem ter nenhum sintoma da doença. Aliás, nunca senti nada, nem antes nem depois de diagnosticada. Descobri por puro acaso.
Não pensem que foi fácil receber esse diagnóstico aos 25 anos de idade. Era como se minha vida tivesse acabado. Os relatos na internet são aterrorizantes. E eu ainda tinha tantos sonhos! O maior deles era ser mãe. De repente, era como se o chão se abrisse embaixo dos meus pés.
Três anos depois, quando enfim recebi indicação para o tratamento, passei seis meses tomando uma injeção por semana e remédios diários. Os medicamentos tinham efeitos colaterais muito agressivos, como uma quimioterapia, o que significa que passei mal 24 horas por dia durante todo esse tempo. Teimosa, não deixei de trabalhar: tomava a injeção na sexta à tarde, caía de cama na sexta à noite, ficava na cama sábado-domingo-segunda, e terça-feira ia trabalhar. Perdi muito peso - e metade dos cabelos. Estava sempre fraca. Muitas vezes não conseguia nem dirigir de volta para casa.
E depois desses seis meses... o tratamento fracassou. Por muitos anos, eu terminava essa história dizendo que a Medicina não dispunha de nada que pudesse me ajudar, mas que eu não perderia a fé.
Quatro anos depois, eu estava no primeiro lote de pacientes tratados com os novos anti-virais contra a hepatite C. E hoje eu posso dizer, com lágrimas nos olhos, que estou curada!

Foi mais de uma década de luta. Durante todo esse tempo, eu pesquisava muito sobre tratamentos alternativos e todas as novas drogas em estágio de pesquisa. Participei ativamente de campanhas do Ministério da Saúde e criei as minhas próprias. Mandei carta para deputado, senador, ministro e até para a Dilma. Participei de eventos de ongs e de manifestações públicas. A luta não era só por mim, e é por isso que ela continua...
   
Precisamos diagnosticar os milhões de infectados que estão por aí sem nem desconfiar que vivem com uma bomba relógio dentro do organismo. Precisamos dar a eles a chance de um final feliz. Nesses anos todos, eu vi muitos companheiros de luta morrerem. Não me conformo com isso. Não me conformo que ainda perderemos muitas outras pessoas. Não me conformo que essas mortes poderiam ser evitadas com informação.

Por isso peço a ajuda de vocês: quanto mais pessoas disseminarem essas informações, mais chances temos de salvar vidas.

O que você pode fazer?

1. Se você nunca fez um exame de hepatite B e C, ou se não tem certeza, peça esses exames na próxima consulta médica. A Cassi cobre.
2. Converse com amigos e familiares, estimule-os a fazerem o exame também.
3. Previna-se! Esteja atenta às situações de risco. Algumas medidas importantes:

- Leve seu próprio kit à manicure (inclusive o palitinho),
- Certifique-se da adoção das medidas de segurança em clínicas estéticas, procedimentos médicos/odontológicos, estúdios de tatuagem etc
- Use preservativo nas relações sexuais (para prevenir a hepatite B e muitas outras doenças, como o HIV e HPV)
- Tome as três doses da vacina da hepatite B. É gratuita nos postos de saúde. Se você não tem certeza se já tomou, faça um exame de anticorpo da hepatite B para testar. Infelizmente, ainda não existe vacina contra a hepatite C.


Se quiser mais informações, acesse o blog Animando-C. Ele tem esse nome por ter como objetivo abordar a hepatite C de forma otimista. É o local de acolhida das pessoas que chegam desesperadas após lerem algumas informações disponíveis na internet. Tudo baseado em pesquisas científicas e feito com muito amor e carinho. A hepatite C é uma doença grave, mas tem cura. E a informação, mais do que nunca, é poder!   


PS: E o meu maior sonho? Minha Amanda tem hoje 10 anos de idade. Nasceu quando eu ainda estava infectada, mas graças a Deus não tem a doença. 


Este texto foi publicado originalmente em minha coluna no Blog Bancárias no Poder, na intranet corporativa da empresa em que trabalho, em 27 de dezembro de 2017. As opiniões político-partidárias, quando houver, refletem as opiniões da colunista, não necessariamente do Blog Bancárias no Poder, da comunidade Bancárias no Poder ou de suas administradoras.

Ana Shah é analista de TI na Diretoria de Tecnologia de uma grande empresa do mercado financeiro. Pedagoga apaixonada por Educação, blogueira, mãe, voluntária, entusiasta do software livre e interessada por tudo relacionado à cultura indiana. Escreve também os blogs Amor Indiano e Animando-C (luta contra hepatite C) e para outros sites que você encontra no menu deste blog.  

Salvando as próximas gerações

No artigo da semana passada, falamos sobre o triste feminicídio da colega Raquel Ribeiro. A discussão que se seguiu nos comentários trouxe importantes ideias sobre o que podemos fazer para combater a violência contra a mulher. Hoje convido vocês a conversarmos sobre um dos assuntos levantados por lá: estamos educando as próximas gerações para que elas não reproduzam essa lastimável realidade quando crescerem?
Tomemos como ponto de partida o comentário da colega Cristiane Matos da Costa:
" [...] [É preciso] ensinar nossos filhos como perder num jogo, mostrar que a vida é de ganhos e perdas, saber ganhar e saber perder, se solidarizar com o próximo tão raro hoje. Escandalizamos mais do que nos solidarizamos. [...]"
Para começar, sugiro pensarmos nessa questão indo além dos nossos próprios filhos, contemplando também as demais crianças com quem convivemos. Nem todas temos - ou teremos - filhos, mas todas podemos mudar nosso comportamento em relação a sobrinhos, primos, filhos de amigos etc.

Todas devemos concordar que queremos que nossas crianças sejam felizes. E também que, para isso, elas precisam saber ganhar e perder.
Mas como nós temos ajudado nesse aprendizado no dia-a-dia? Basta simplesmente conversarmos com a criança quando ela está triste por uma perda, tentando ensinar que isso faz parte da vida? Ou será que se trata de um aprendizado muito mais complexo, e que muitas vezes o nosso próprio comportamento ensina o contrário?

A contradição começa quando, na sociedade extremamente competitiva que vivemos, muitas vezes para a pessoa ser feliz (que é o que queremos), ela precisa ser "a vencedora". Exemplos simples: para entrar numa faculdade, precisamos ser melhores que os outros; o mesmo num concurso público; o mesmo para sermos promovidos no trabalho. Nós queremos que elas vençam, que alcancem seus objetivos.
Isso quer dizer que temos de ensiná-las a perder quando, na verdade, não queremos que elas percam de fato. E é aí que nós, no dia-a-dia, podemos perder o equilíbrio.

Perdemos o equilíbrio quando, por exemplo, vamos à escola brigar com o professor porque achamos que nosso filho foi injustiçado de "n" maneiras. Concordo que existem situações em que os pais devem intervir, mas vejo várias outras em que os pais estão simplesmente superprotegendo as crianças/adolescentes ou fazendo seus caprichos. Ou mesmo sendo orgulhosos e não admitindo que seus filhos passem por algo - mesmo que seja uma punição justa por um comportamento inadequado.

Na vida muitas coisas não são como a gente quer, e nós não podemos simplesmente sair lutando em defesa dos filhos toda vez que eles forem contrariados - porque fazendo isso estamos justamente ensinando que eles não podem ser contrariados. Faz sentido? Façamos uma honesta autoanálise (ninguém está vendo): quantas vezes fazemos isso, consciente ou inconscientemente?
Quantas vezes impedimos que nossos filhos se sintam frustrados? Como eles aprenderão a lidar com a frustração se não lhes damos essa oportunidade?

Particularmente, eu percebi que precisava adequar o meu comportamento como mãe em algumas situações e tenho tentado fazer isso (não é fácil!). Especialmente em relação a poupar minha filha de tudo que considero negativo.
Entendi também que meu exemplo é a melhor forma de ensiná-la a lidar com algo que não acontece como a gente quer. Sobre isso, compartilho com vocês algumas reflexões:

Reflexão 1:

Como posso ensinar pelo exemplo se eu escondo (ou deixo de compartilhar) com ela algumas situações em que me frustro, em que as coisas deram errado, quando só mostro o que é legal, aquilo em que tive sucesso?

[Questão importante: não estou dizendo que se deve compartilhar todas as frustrações da vida com os filhos, pois isso seria muito prejudicial a eles!]

Um exemplo prático: nas Mini-Olimpíadas da Ditec de 2015, competi numa prova de revezamento de natação para que minha Gerência não perdesse por WO. Como só havia mais duas equipes inscritas, terminar a prova garantiria a medalha de bronze. Existia, entretanto, um pequeno detalhe: eu não sei nadar de verdade! Eu consigo me deslocar na água, consigo 'não morrer afogada'. Mas existe uma enorme distância entre o nado de sobrevivência e atravessar uma piscina nadando crawl! Mesmo assim, pelo espírito de equipe, fui. Lembro da cena muito bem: fui a última da equipe a cair na água. Quando alcancei a parede na metade da prova, eu já tinha engolido uma quantidade considerável de água (sério!). A essa altura, as demais equipes já tinham terminado: só havia eu na piscina e a arquibancada gritava palavras de incentivo. Nem sei descrever o desespero ao ver que ainda tinha de nadar todo o trajeto de volta. Mas respirei fundo e segui com meu nado honestamente ridículo, parando de tempos e tempos (para respirar e não morrer). Terminei a prova em último. Minha filha tinha 8 anos e estava lá assistindo e torcendo por mim. Na volta para casa, ela disse: "Mamãe, até que você foi bem para a primeira vez" (bonitinha! - e ela sim é uma excelente nadadora, nada desde os 3 meses de idade).

Levamos para casa conosco uma medalha de bronze (de plástico, na verdade) que significava:
- não importa você ter sido a última, importa que você foi e que você não desistiu;
- você não precisa ser boa em tudo, muito menos a melhor em tudo; (mulheres, lembrem-se disso!)
- tudo bem perder (no caso, tem também o "tudo bem pagar mico na frente dos colegas de Banco")
Quer dizer, nem precisava ter tido medalha para ter valido à pena. Tenho certeza que ela aprendeu muito mais nesse dia do que com as minhas palavras de consolo em outras ocasiões.

[Questão importante: "saber perder" é diferente de "querer perder". É importante incentivar seu filho e mostrar que acredita nele.]     


Reflexão 2:

Como quero que meu filho entenda que está tudo bem perder, se quando acontece comigo eu reajo muito mal? Já viram adulto que faz birra, que desqualifica (e odeia) a fonte de sua frustração? Já fiz isso várias vezes, confesso.

No ano passado, coleguinhas da minha filha na escola destilavam ódio à então presidenta Dilma Roussef, falavam que queriam que ela morresse. É isso mesmo que devemos ensinar a nossas crianças? Que se alguém está "atrapalhando" o que queremos, nós devemos ser violentos - vide apologia a estupro e morte? Não é EXATAMENTE isso que leva à maior parte dos feminicídios? A questão aqui não é apoiar ou não um presidente, isso é uma decisão individual e temos liberdade e direito de escolher nosso posicionamento. Me refiro à educação por exemplo: o que educa é a prática, não o discurso de respeito.      


Reflexão 3:

No comentário da Cristiane, ela falava sobre ensinar a solidarizar-se com o próximo. "Escandalizamos mais do que nos solidarizamos." - frase muito verdadeira. Acho que, mais uma vez, todas concordamos que isso é muito importante. Com certeza falamos sobre isso com nossos filhos muitas vezes. Mas... e na prática?

Pensem numa festa de aniversário infantil, no momento tão esperado de estourar o balão surpresa. É de cortar o coração ver a tristeza da nossa criança quando não consegue pegar nada. Então conversamos com ela, explicamos que ela precisa se esforçar mais da próxima vez, "se jogar", fazer sua parte, senão ficará sem - igualzinho na nossa sociedade competitiva, não é mesmo?

Só que, ao fazer isso, apesar dela ficar feliz ao final, é possível que ela, literalmente, tire doces e brinquedos da mão de outra criança. É possível que, sem querer, ela acabe machucando alguém. É possível que ela fique com muito e alguma criança fique sem nada. Nesse caso, como nós intervimos? Qual o nosso sentimento?
Ficamos felizes que nosso filho/irmão/sobrinho/etc é esperto e pegou um monte de coisa? Felizes por ele ter ficado feliz? Felizes por ele ter superado uma limitação anterior? Justo.
Mas e depois disso? Fazemos com que ele peça desculpas para a criança que ele machucou sem querer durante a brincadeira? Ou achamos isso desnecessário, porque esses "acidentes" fazem parte do jogo? Ensinamos que ele olhe para o lado e identifique as crianças que ficaram tristes e dividam com elas o que conseguiram pegar? Ou achamos que os outros devem ficar sem nada mesmo para aprenderem a ser mais espertos da próxima vez? Lembrando que meritocracia e solidariedade são conceitos que nem sempre combinam.

Eu sei que não é fácil olhar criticamente para nós mesmos, até porque tenho certeza que cada um de nós faz o melhor que pode, em especial em relação às pessoas que amamos.
Mas quando falamos em mudanças, não podemos esperar que apenas os outros mudem, sem fazer a nossa parte.

Estamos discutindo uma mudança que, por ser cultural, é ainda mais lenta e difícil de ser feita: o machismo e a violência contra a mulher. Não dá pra fazer isso sem reflexão. Não dá para fazer isso sem autoanálise.


O machismo, assim como outras mazelas sociais, não está apenas no outro, não está no corredor, do lado de fora das nossas casas. O machismo está dentro de todos nós, arraigado. E, acreditem, ele não vai desaparecer simplesmente porque a gente quer. É preciso lutar. E essa luta precisa acontecer internamente também.

E você? Como acha que podemos preparar melhor as gerações futuras para mudar essa realidade?


Este texto foi publicado originalmente em minha coluna no Blog Bancárias no Poder, na intranet corporativa da empresa em que trabalho, em 20 de dezembro de 2017. Os comentários a que se refere estão na intranet e, portanto, não podem ser consultados por pessoas de fora. As opiniões político-partidárias, quando houver, refletem as opiniões da colunista, não necessariamente do Blog Bancárias no Poder, da comunidade Bancárias no Poder ou de suas administradoras.

Ana Shah é analista de TI na Diretoria de Tecnologia de uma grande empresa do mercado financeiro. Pedagoga apaixonada por Educação, blogueira, mãe, voluntária, entusiasta do software livre e interessada por tudo relacionado à cultura indiana. Escreve também os blogs Amor Indiano e Animando-C (luta contra hepatite C) e para outros sites que você encontra no menu deste blog.  

Bancárias de luto



Nesta segunda-feira, perdemos a colega Raquel Ribeiro, de Santa Margarida (MG), vítima de feminicídio: https://noticias.r7.com/cidades/gerente-de-banco-e-morta-com-36-facadas-em-santa-margarida-mg-12122017

Sei que alguns ainda conseguirão uma forma de culpar a vítima, por exemplo: "vai namorar com servente de pedreiro, dá nisso..." Cuidado com os julgamentos (e a discriminação)! Não existe um "perfil" de homem que comete esse crime: eles estão em todas as profissões, todas as classes sociais, sentados ao nosso lado ou, quem sabe, dormindo na nossa cama. Muitas vezes, são os próprios familiares (50,3%) ou parceiros/ex-parceiros (33,2%) os que cometem os assassinatos. Nós não acreditamos que isso pode acontecer. Mas acontece - e muito mais frequente do que se imagina.

O Brasil está entre os países com maior índice de homicídios femininos: ocupa a quinta posição em um ranking de 83 países, segundo dados do
Mapa da Violência 2015 (Cebela/Flacso). “Essa situação equivale a um estado de guerra civil permanente.” - diz Lourdes Bandeira, socióloga, pesquisadora e professora da Universidade de Brasília.

Eu sempre converso seriamente com minhas amigas para que, em qualquer situação de violência (física ou emocional), se sentir-se perseguida ou invadida de alguma forma, liguem para o 180 para conversar. Mas qual o termômetro? Como saber se realmente existe algum risco, se não estamos exagerando? O termômetro é o SEU sentimento. Ligar não custa nada, nem vai causar dano algum à pessoa que lhe está causando transtorno: não é uma denúncia em si - apesar de que você também pode formalizar uma denúncia se achar que deve.

Quem vai atender você é uma pessoa treinada para isso, e ela vai saber lhe orientar. Se você estiver exagerando, eles vão lhe dizer. Melhor pecar pelo excesso. Tenho o caso de uma amiga que, após a conversa no 180, escreveu um longo email para o ex-namorado relatando tudo o que havia ouvido, deixando bem claro todas as implicações que ele poderia ter se continuasse com aquele comportamento de perseguição. Ele nunca mais a procurou, e acabou a tortura psicológica e sofrimento.

Claro que nem todos os casos são tão simples, que nem todos os agressores têm bom senso. A Raquel tinha uma medida protetiva contra o assassino, que estava impedido de se aproximar dela. Ela mudaria de cidade na semana seguinte. Mas isso não foi suficiente para protegê-la.

Eu chorei ontem pela Raquel. Chorei pela filha dela de 8 anos, que foi quem achou o corpo da mãe. Chorei também por mim e pela minha filha. Não dá para aceitar uma coisa dessas!

E o que a gente pode fazer, eu e você? Para começar, a gente pode - e deve -  falar sobre isso. Não silenciar, não achar normal, não "deixar passar". Precisamos, ao menos, reconhecer que o problema existe, é grave, e pode atingir a todas nós. Precisamos conhecer os mecanismos de proteção. Precisamos educar nossos filhos meninos para que sejam diferente disso - e não é ignorando o assunto que o faremos. Precisamos apoiar as mulheres ao nosso redor. O que mais vocês acrescentariam a essa lista?

Para terminar, queria trazer a descrição de feminicídio da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher (Relatório Final, CPMI-VCM, 2013), porque ela desvela muitas coisas sobre as quais precisamos refletir.

“O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.” O que dizer?

Como eu não tenho mais palavras, vou deixar que vocês falem. Ocupem os comentários, usem os espaços que tiverem acesso... simplesmente não "deixem passar"...

Sentimos muito, Raquel.

 

Algumas fontes consultadas:
http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/violencias/feminicidio/
https://nacoesunidas.org/onu-feminicidio-brasil-quinto-maior-mundo-diretrizes-nacionais-buscam-solucao/
https://estilo.uol.com.br/noticias/redacao/2017/10/14/feminicidio-estados-ainda-nao-divulgam-assassinatos-contra-mulheres.htm

 

Este texto foi publicado originalmente em minha coluna no Blog Bancárias no Poder, na intranet corporativa da empresa em que trabalho, em 14 de dezembro de 2017. As opiniões político-partidárias, quando houver, refletem as opiniões da colunista, não necessariamente do Blog Bancárias no Poder, da comunidade Bancárias no Poder ou de suas administradoras.

Ana Shah é analista de TI na Diretoria de Tecnologia de uma grande empresa do mercado financeiro. Pedagoga apaixonada por Educação, blogueira, mãe, voluntária, entusiasta do software livre e interessada por tudo relacionado à cultura indiana.
 


Campos do Jordão: 5 coisas para saber antes de viajar 

Foi-se o tempo em que dependíamos apenas de guias de viagem - e suas sugestões patrocinadas - para planejar uma viagem. Hoje a internet nos oferece um rico conteúdo de experiências reais, compartilhadas pelos próprios viajantes. Apesar disso, nem sempre nossas pesquisas são suficientes. Compartilho com vocês neste artigo cinco coisas sobre Campos do Jordão que eu gostaria de ter sabido antes de embarcar para lá. Observação: informações referentes à alta temporada, que acontece entre julho e agosto.


1. Meios de transporte

Em Campos do Jordão, não tem Uber, nem Cabify, nem 99 Taxi etc. Os hotéis em geral não oferecem transfer, nem mesmo pago. Ao descer na rodoviária, você se sente de volta ao passado [que exagerada!], precisando achar número de tele-táxi para ligar. 

A cidade não tem uma boa infraestrutura de transporte público, o que nos deixa reféns dos táxis - e sua odiosa bandeira 2 à noite e finais de semana.

Alugar um carro seria melhor? Não tenho certeza. Durante a semana, até que o trânsito é mais tranquilo. No final de semana, há engarrafamentos e é difícil encontrar vaga para estacionar. Fora que o friozinho de Campos do Jordão combina com vinho e você não vai querer dirigir depois de beber, não é mesmo?

Se sua resposta à pergunta acima for sim, duas informações relevantes:
- Na temporada, tem uma dupla de policial a cada esquina - e sim, com blitz de bafômetro. 
- Na nossa última noite, vimos um carro que acabara de cair no trilho do trem - motorista embreagado, imagino. 

Outra questão que desabonaria o aluguel de um carro, na minha opinião: a viagem de volta para São Paulo. Era para ser de 3 horas, mas durou 5 devido ao engarrafamento. Particularmente, prefiro estar no ônibus dormindo ou fazendo qualquer outra coisa do que dirigindo num trânsito como aquele.

Dica: voltar ao final do dia de domingo não é uma boa ideia, justamente pelo engarrafamento da volta à São Paulo. 

Para quem não se importa em caminhar, os pés parecem ser a melhor opção de deslocamento dentro de Campos do Jordão. ;)

2. Escolhendo o que fazer

Campos têm muitas opções de turismo e lazer. Não adianta querer fazer tudo de uma só vez. Escolha o que combina mais com seu perfil. 

"O que você gostaria de dizer para os leitores que estão planejando uma viagem para Campos do Jordão?" 

Resposta do marido: "Aproveite o centro (Vila Capivari), o clima, o movimento, a comida, a cerveja, o vinho... Não queira fazer muitas coisas, simplesmente aproveite."


3. Reservas antecipadas

Você precisa fazer algumas reservas com alguma antecedência, de preferência antes mesmo de viajar. 

Com base nas dicas da internet, fizemos todo um planejamento de onde ir e quando, só não contamos que muitas coisas estariam lotadas. Confira as principais: 

A) Baden Baden Tour

Estávamos empolgadíssimos para conhecer como a cerveja é feita, fazer degustação e outras coisas que a tour pela fábrica da Baden Baden oferece. 

Ficamos 6 dias na cidade e não conseguimos fazê-la. Nos quatro primeiros dias, durante a semana, o telefone - única opção de marcação - ou dava ocupado, ou ninguém atendia, ou dizia que o telefone não estava funcionando. Quando finalmente alguém me atendeu, já não havia mais vagas para os próximos dias e tinha uma lista de espera de 86 pessoas - sendo que a tour acontece em grupos de 30. 

Mesmo assim resolvemos arriscar, porque quando as pessoas que reservaram não aparecem, são substituídas por quem está na lista de espera. Esperamos por três horas no local e desistimos. Saímos de lá muito frustrados - e ainda tinham 30 pessoas na nossa frente esperando para serem encaixadas no caso de desistência.

Pelo menos, deu para aproveitar a lojinha.

Dica: agende sua tour, no mínimo, uma semana antes. Se tiver dificuldades com o agendamento pelo telefone, vá ao local e agende pessoalmente. A tour custa R$ 30,00 e dá direito a degustação de três cervejas, e o visitante leva uma taça para casa de brinde. 

B) Passeio de trem em Campos do Jordão

Existem várias opções de passeio de trem, sendo que as mais famosas são o trem urbano, que tem formato de bonde, e, como o nome sugere, fica dentro da cidade, e o Trem do Mirante - que dizem que é um passeio lindo! Ambos saem da estação Emílio Ribas, na Vila Capivari. Mais informações aqui.

O passeio do trem-bonde é mais fácil de conseguir lugar - mesmo assim só foi possível comprar passagem para o dia seguinte. Não acho que valha a pena para quem não está com criança. O trenzinho em formato de bonde sai da Vila Capivari, vai até o portal de entrada da cidade, e volta. A gente nem desce para tirar fotos. Sinceramente, é muito mais interessante estar do lado de fora e tirar fotos nos trilhos e do trem passando do que ser passageiro. Pelo menos, não é um passeio caro (R$ 15,00). [Eu pedi para descer na estação do portal de entrada da cidade e ficamos por lá mesmo, sendo avisados pelo motorista de que perderíamos a passagem de volta].

Já o passeio do trem do mirante é bem concorrido. Precisa ser marcado com, no mínimo, 10 dias de antecedência. Não conseguimos fazê-lo por esse motivo. Pesquisando posteriormente, descobri que você pode comprar o ingresso antecipadamente pela Central de Reservas da Estrada de Ferro, por meio do telefone (12) 3644-7409 ou email central.reserva@efcj.sp.gov.br, mediante depósito bancário. 

Teleférico - passeio que vale a pena
(apesar do meu medo de altura)



C) Reservas em restaurantes

Alguns restaurantes só aceitam clientes com reserva. Fique esperto se é o caso do restaurante que você escolheu. 

Minha sugestão: veja se seu hotel oferece serviço de concergie e pode reservar restaurantes/comprar os ingressos para você. O primeiro hotel que ficamos oferecia esse serviço, mas nós, acostumados em fazer tudo por nós mesmos, nem aproveitamos - e no final nos demos mal. O passeio de trem é, por exemplo, uma das compras que dizem que os hoteis estão acostumados a fazer.


Restaurante Pousada Alto da Boa Vista
Apenas com reserva antecipada



4. Algumas coisas interessantes de contar:

A) Café-da-manhã

Uma coisa que amei em Campos do Jordão foram os cafés-da-manhã dos hoteis abertos até mais tarde. Num dos hotéis o horário do café ia até 11h e no outro até 12h. Aprovado!

B) Como economizar no valor das diárias em Campos do Jordão

Por que eu fiquei em dois hoteis diferentes? Elementar, meu caro Watson. Campos do Jordão é turismo para a elite, tudo é caro. Eu queria ficar num hotel no centrinho, para poder me deslocar com mais facilidade - não conhecia a cidade. E, sendo lua-de-mel, queria ficar num hotel bacana. O único detalhe: não sou elite, nem bacana hehe. 

A diária dos hotéis durante a semana é mais barata que nos finais de semana. Como chegamos numa terça-feira, ficamos as duas primeiras diárias no hotel que eu queria no centro, cinco estrelas, vida bem boa. Depois reservamos as outras três diárias num hotel um pouco mais afastado. Aí, já sabíamos como nos virar na cidade. Com isso, economizamos R$ 1.800,00. 

A única coisa que a pousada deixou a desejar em relação ao hotel 5 estrelas foi o aquecimento central.  

C) Informações turísticas

Os muitos policiais que encontramos pelas ruas não sabem dar informações, simplesmente porque eles não são da cidade - foram destacados para lá para o período de alta temporada. Não perca seu tempo perguntado. :D

D) Patinação no Gelo

O Google não mostra o rinque de patinação no gelo mais próximo ao centro. Ele fica num shopping chamado Boulevard Genève, que só abre no período de alta temporada. R$ 80,00 a hora (caro, mas vale a pena para quem curte). Fica a dica! 

O rinque The Ice fica localizado no shopping sazonal Boulevard Campos (prédio do antigo Market Plaza). A pista é muito bem localizada ficando a menos de 500 metros do centrinho turístico da Vila Capivari e tem 400 m². Mais informações: http://www.boulevardgeneve.com.br/

E) Não confie no Google Maps!

O Google Maps não é muito confiável em Campos do Jordão. Tenho a tese ridícula de que gente rica não fica andando na rua com Google Maps. Então os locais não estão bem marcados no mapa - isso deve ser coisa de classe média ;)

Exemplo: pegamos bicicletas emprestadas no primeiro hotel e queríamos ir ao portal de entrada da cidade para tirar fotos. O resultado foi que o Google nos mandou para o lado totalmente oposto. Foram 5 horas de pedaladas, passando por lugares muito legais, mas nada de foto no Portal. 

F) Festival de Inverno

Em julho, acontece o Festival de Inverno de Campos do Jordão. Fique ligado nas diversas atrações. Não nos programamos, porque achei que seria que nem Gramado: você está andando pela rua e, de repente, tropeça numa apresentação musical. Não foi o caso. Nosso saldo de atrações do Festival de Inverno assistidas: zero. 

G) Roupas de inverno em conta

As coisas no coração da Vila Capivari são caras, mas uns passinhos adiante, por exemplo, ao lado do Teleférico, tem umas lojinhas baratas de roupas de lã, luvas, gorros etc. Os modelos são bem bacaninhas. Sobre a qualidade, só poderei testemunhar daqui a algum tempo - se vão durar ou não

5. Vale muito a pena:

A) Amantikir - "Jardins que falam" 

Vinte e seis lindos jardins para visitação.
O taxista nos disse que as pessoas ficam em média 1h30 por lá. Nós ficamos 3 horas e ainda não conseguimos ver tudo. Recomendado para quem gosta de andar e de ver coisas bonitas que dão alegria ao coração.  E fotos, claro.
É longinho da cidade, mas vale muito a pena.  Mais informações: http://www.parqueamantikir.com.br/











B) Arte da Pizza

Um conjunto de coisas fazem o jantar nesse restaurante uma experiência incrível! Para começar, ele fica no Grande Hotel Campos do Jordão - um hotel escola do Senac. Isso faz do atendimento fantástico (estão sendo bem treinados e avaliados por isso).

A pizza é preparada na nossa frente e assada no forno de pedra ao nosso lado. O ambiente é elegante e agradável.

Mas é a proposta do restaurante que o torna inesquecível. Envolve coisas como comer a pizza com as mãos e mastigá-la junto com o vinho para entender a harmonização. 

6. Bônus: Aparecida - SP

Reservamos um dia de nossa viagem a Campos do Jordão para conhecer Aparecida. Confira aqui: Dicas de viagem: um dia de fé em Aparecida - SP





Hoteis em que ficamos hospedados em Campos do Jordão:
  • Hotel Frontenac


  • Pousada Mar Deny 


Taxista que nos atendeu em Campos do Jordão: 

  • Paulo Roberto (12) 9978-9498



Dicas de viagem: um dia de fé em Aparecida - SP

Reservamos um dia de nossa viagem de lua-de-mel a Campos do Jordão para conhecer Aparecida. Como não casamos no religioso (eu sou espírita e ele hindu), foi como a benção do matrimônio.


 

Embora pareça evidente, é importante ressaltar que estamos falando de turismo religioso. Portanto, se você não se interessa por religião, não há muito o que fazer por lá. O mesmo se você for daquele tipo de Evangélico que rechaça a Igreja Católica e seus santos: esqueça, não é um lugar para você.

Mas se você for uma pessoa espiritualizada, independente de religião, que respeita lugares sagrados e adora sentir a paz que eles trazem ao coração, talvez seja a sua oportunidade para conhecer Aparecida. 

O taxista nos cobrou R$ 250,00 para nos levar de Campos do Jordão até lá, esperar, e nos trazer de volta. Fora de cogitação para o meu bolso. Fomos de ônibus: 1h30 até Taubaté e depois mais 40min até Aparecida. Gastamos aproximadamente R$ 100 somando todas as passagens, para duas pessoas. Coloca aí a viagem de ônibus na cota do "sacrifício" religioso ;) A empresa que faz essa rota é a Pássaro Marrom. Observação: de carro, a viagem de Campos do Jordão a Aparecida dura por volta de 1h30min.

A cidadezinha no interior de São Paulo tem literalmente cara de uma cidadezinha do interior de São Paulo. Mas logo na entrada já vemos a oponente Basílica de Nossa Senhora Aparecida. 

Dicas:

1. Indo de ônibus, peça ao motorista para descer logo na entrada da cidade, porque a caminhada da rodoviária até a Basílica é de uns 20 a 30 minutos. A opção? Taxi tabelado. Mas não deixe de fazer essa caminhada na volta e "sentir" a cidade, visitar as lojinhas, ver a primeira Igreja erguida para a Santa Padroeira do Brasil. A vista da Basílica ao pôr-do-sol pela passarela é deslumbrante. 


2. Se quiser passear no teleférico que "sobrevoa" a cidade - o que parece muito legal - chegue mais cedo e o faça antes de ir para a Basílica. Motivo: a atração fecha às 17h30.

3. Chegue no mínimo 20 minutos antes do horário da missa, se quiser assistir à missa sentado.


4. Você já deve ter lido na internet que as lojinhas fora da Basílica são muito mais baratas - e isso é verdade! Elas também oferecem muita variedade em imagens, medalhas e outros tipos de souvenirs. Mas, na minha opinião, não dá para comparar a qualidade dos produtos. Eu fiquei muito desapontada porque deixei de comprar a "imagem-perfeita-para-mim" de Nossa Senhora Aparecida, porque apostei que encontraria similar lá fora, mais barata. Só que não. A que eu comprei também era bonita (encontrada depois de olhar umas 500), mas se o cansaço e o horário do ônibus me permitissem, eu voltaria todo o trajeto para comprar a outra imagem, mesmo que pelo dobro do preço. Já o meu marido achou que era tudo muito similar à loja da Basílica, então, essa avaliação depende de pessoa para pessoa. 

5. Saiba que existe na Basílica uma "Sala das Promessas", onde as pessoas deixam fotos e objetos que remetem à graça recebida. Vestidos de casamento, réplicas de carros, camisas de esportistas, discos de artistas e fotos de filhos são alguns exemplos do que encontramos por lá. A sala é gigantesca e é impossível contar (ou até mesmo ver) todos os seus itens! Então, querendo fazer ou pagar uma promessa, não esqueça de carregar consigo o objeto que gostaria de deixar por lá.

6. Esteja na Basílica às 18h, hora da Ave Maria, e sinta na sua pele a vibração do som dos sinos badalando. É lindo! #lagriminhas

Como o Facebook me fez desistir da Humanidade

Corpos em campo de concentração nazista na Alemanha (Corbis/VEJA)

É verdade que ando ausente das redes sociais. Mas está tudo bem. Ou quase. Apenas redes sociais não fazem muito sentido quando você não quer se relacionar com outras pessoas, o que é o meu caso. Explico melhor abaixo.  

Um dos meus maiores aprendizados desde as eleições de 2014 foi que as pessoas são más e egoístas. Não estou falando do lado A ou B - embora no meu feed fique bem claro qual é o lado que cospe ódio. 

Estou falando de como as pessoas são mesquinhas. O quanto não se importam por compartilhar mentiras desde que elas lhe convenham, ou seja, corroborem suas teses sem fundamento. 

O que me leva ao segundo aprendizado: as pessoas não estão preocupadas com a verdade. Elas têm a sua opinião e refutam a lógica e a coerência em nome de provar que estão certas. Isso é doentio. Sim, as pessoas estão doentes. 

Antigamente, as pessoas se preocupavam em ser (ou parecer?) inteligentes e boas. Hoje isso está fora de moda: "O que importa se isso que estou falando é a maior idiotice do Universo? Essa é a minha opinião e ela vale mais que a razão". Convenhamos que, atualmente, as opiniões valem mais até do que a lei. 

Compartilho com vocês um diálogo que ocorreu em 2016:
 - Você é advogada, você sabe que não há base jurídica para o impeachment.  
- O que você não entende é que isso é um julgamento político e não jurídico. 
E eu, tolinha, achando que vivíamos num País onde as leis deviam ser respeitadas, ao menos pelos legisladores! 

Isso me leva ao meu terceiro aprendizado: as pessoas cagam para as leis (desculpem a palavra, mas não existe uma expressão melhor). Eu já devia saber disso pela observação do dia-a-dia, onde a lei da vantagem supera as demais (jurídicas e morais). 

Todos os dias eu quase bato meu carro simplesmente porque os motoristas que passam naquela pista ignoram completamente a placa de PARE. Eles mudaram o significado da placa PARE para "Dê a preferência" - que eu aprendi na autoescola que era outra placa. Agora PARE não significa mais parada OBRIGATÓRIA, mas "vai diminuindo a velocidade para ver se dá tempo de passar e, se der, toca a ficha". Para outros significa: "essa placa de PARE aqui é para os fracos e não se aplica a mim, o sabidão do Universo". 

Fico impressionada com o quanto é importante para as pessoas economizarem 5 segundos de vida no trânsito, ao mesmo tempo em que gastam horas tentando convencer os outros que eles são burros e ridículos (os outros, claro) - o que faz delas, no mínimo, burras e ridículas. 

"Mas com este artigo você não está fazendo exatamente o mesmo? Julgando que as pessoas são burras e ridículas?"

Se você pensou isso, é porque se sentiu ofendido com minhas palavras. Se você se sentiu ofendido com as minhas palavras, é porque se identifica com o perfil descrito. Sendo assim, pense o que quiser, pois não há argumentos no mundo que façam você ao menos considerar o ponto de vista do outro, quissá mudar de ideia. 

Talvez você se identifique com o texto abaixo também e, ao final deste artigo, conclua que o Hitler até que era um cara de bem e você votaria nele.

Aliás, quando eu vejo as pessoas que marcham ao lado dessas autodenominadas "pessoas de bem", cada vez me convenço mais de que estou do lado certo. Aquele cara barbudo nunca estaria ali (estou falando de Jesus). Mas ainda dizem que quem vai queimar no inferno sou eu...

Entrevista com Robert Gellately à Revista Veja - uma fonte considerada confiável pelas pessoas de bem. Segundo a Veja, Gellately é um renomado professor de história da Universidade Estadual da Flórida. 

Como o senhor chegou à polêmica conclusão de que grande parte dos alemães tinha uma imagem clara das atrocidades nazistas? Entre 1933 e 1939, a maioria dos cidadãos sabia sobre os campos de concentração e a Gestapo (polícia secreta do regime nazista), simplesmente porque se podia ler abertamente sobre o assunto na imprensa. Conhecendo o mito “nós não sabemos de nada”, fiquei chocado com a quantidade de material que era publicado na imprensa local, regional e nacional. Muito do que aconteceu estava ali – as pessoas apenas ignoravam por rejeitar a informação. Isso porque o regime nazista não ameaçava todos os alemães, apenas grupos minoritários selecionados, incluindo, claro, os judeus. A grande maioria da sociedade tinha pouco a temer. Já durante a II Guerra, entre 1939 e 1945, as informações eram mais encobertas. Não obstante, um grande número de pessoas estava envolvido diretamente com as ações do governo, e as notícias chegavam a qualquer um que quisesse de fato saber o que acontecia por baixo dos panos. Nesse período, os campos de concentração cresceram, ocupando fábricas distantes dos centros urbanos e também no interior de algumas cidades, tornando-se parte da vida cotidiana das pessoas e, portanto impossível de serem ignorados.

Quanto os alemães de fato sabiam sobre os campos de concentração e a Gestapo? Eles sabiam muito. O regime tinha orgulho de sua nova polícia e a celebrava anualmente no “Dia da Polícia Alemã”. Um bispo católico chegou a se gabar à congregação sobre como um campo de concentração na região tinha dado à área um novo “sopro de vida”. Hitler apostou no apelo popular por meio de um regime baseado no lema “lei e ordem”. Não são poucos os que preferem a repressão em nome da lei e da ordem em toda parte do mundo. E nós sabemos que esses recursos podem ser perigosos para pessoas ingênuas e inocentes. Por isso, o terror trouxe muito mais apoio ao nazismo do que tirou. O regime se vangloriava de sua nova abordagem contra criminosos reincidentes, alcoólatras crônicos, criminosos sexuais, desempregados e mendigos. Hitler prometeu “limpar as ruas”, e a maioria das pessoas aprovou a medida. Algumas acreditavam de fato no Hitler e no nazismo. Outras queriam proteger seu país e lutar como nacionalistas e patriotas. E provavelmente a maioria lutou para manter distantes os russos e os comunistas, que eram amplamente temidos e odiados no país.

De que forma a experiência de Weimar aumentou o apoio popular a Hitler? Weimar produziu impasses políticos e coalizões governamentais – e, depois de 1929, os regimes não se mostraram fortes o suficiente para superar o desemprego. A ditadura de Hitler se livrou dessas lutas entre partidos, das eleições intermináveis e da fraqueza do governo. Inicialmente, o povo queria “dar a Hitler uma chance”, como se dizia naquela ocasião. De fato, foi uma tentação votar nele. Somente depois se descobriu que ele tinha em mente ideias muito mais radicais do que qualquer um poderia imaginar. Mas quando se percebeu o que estava por vir, já era tarde.
‘Apoiando Hitler: Consentimento e coerção na Alemanha nazista’ (Ed. Record, tradução Vitor Paolozzi, 518 páginas, 67,90 reais) (VEJA)

Como a imprensa construía histórias consistentes sobre o regime? A abordagem nazista para o crime, a raça, a polícia, os campos de concentração não eram apenas casuais, irracionais e esquizofrênicas. O regime, na verdade, apresentou medidas racionais consistentes ao público na imprensa e no cinema. A censura – além de deixar de fora judeus e desligar as vozes comunistas e socialistas – não foi martelada a cada dia. As organizações nazistas, incluindo a SS e a Gestapo, sabiam perfeitamente bem o que queriam dizer, mas Joseph Goebbels e seus parceiros tinham em mente que os cidadãos perceberiam se todos os jornais divulgassem notícias idênticas. Então, era dada aos editores uma ideia geral do que o regime decidia que seria noticiado, e cada veículo seguia aquela ideia a sua maneira. O jornal diário do governo, o Voelkischer Beobachter, era o de maior circulação no país e suas histórias eram frequentemente repetidas por outras publicações. A SS também tinha sua própria publicação, igualmente popular. Para reforçar a boa imagem do sistema, Hitler e Goebbels ainda favoreciam e tratavam com condescendência certos escritores, diretores de cinema e outros artistas. Com isso, os filmes que se destacavam elevavam a raça alemã e promoviam o racismo e outros valores nazistas.

Quais “benefícios” o nazismo deu à Alemanha? Até hoje, Hitler é lembrado por ter garantido uma segurança tal que permitia que as mulheres andassem à noite sem medo ou que os cidadãos deixassem suas bicicletas destravadas sem riscos. Todas essas histórias são só parcialmente verdadeiras, mas ajudam a explicar por que as pessoas apoiaram Hitler. Depois de Weimar, os alemães finalmente podiam dar boas vindas a tempos melhores. Hitler lançou mão de programas de ordem pública e investiu no rearmamento do país para a guerra. O que realmente contou para muita gente foi que ele reduziu consideravelmente o desemprego e trouxe de volta ao país seu orgulho – especialmente ao rasgar o odiado Tratado de Versalhes (1919), acordo de paz que representou o fim da I Guerra Mundial e foi considerado uma vergonha nacional, por impor uma série de restrições à Alemanha.