A difícil tarefa de educar uma criança

Antes de eu ser mãe, as pessoas costumavam invalidar minhas opiniões sobre a educação de crianças - mesmo eu sendo pedagoga, ou seja, formada em Educação. Isso não valia para elas, pois teoria é teoria e prática é prática. Também não era válido o meu longo histórico de ótimo relacionamento com crianças, porque cuidar dos filhos dos outros não é educar. 

Eu e minha filha, aos 11 meses

Pois bem, em parte elas tinham razão: "quem fala de sangue, e não está sangrando, é um impostor", já dizia Fernando Sabino. Em partes. Porque, agora que eu sou mãe, não só acredito nas mesmas coisas como também vejo-as reforçadas na prática. O que quer dizer que, mesmo não tendo passado pela experiência da maternidade anteriormente, as minhas vivências, a minha sensibilidade e o meu estudo tornaram-me apta para formar algumas ideias sobre o assunto. 

Se eu sei tudo sobre como educar uma criança? Se eu faço tudo certinho como mãe? Obviamente que não. Mas, como a maior parte das mães, eu tenho sempre a melhor das intenções. ;)


Eu acredito que as crianças devem ser criadas com autonomia, o que as faz perceber desde cedo que são capazes. Por exemplo, minha filha dormia sozinha no berço desde a primeira semana de vida. Eu não a fazia dormir balançando no meu colo, nem mamando. Eu ensinei a ela que ela era capaz de fazer isso sozinha, sem precisar de uma muleta - balanço ou peito/mamadeira.



Eu acredito que as crianças devem sentir-se amparadas. Como eu disse, minha filha dormia sozinha no berço, mas eu não a deixava sozinha chorando. Eu ficava ao seu lado, cantando e dando batidinhas em suas costas, como que dizendo: "A Mamãe está aqui". Sou contra o método Nana nenê, que defende que as crianças devem ser deixadas esguelando-se sozinhas no berço até cansarem e pararem de chorar. Acredito que coisas que gerem sensação de abandono devem ser evitadas, assim como chantagens do tipo: "se você fizer isso de novo não serei mais sua mãe".


Eu acredito que as crianças devem ter sua autoestima reforçada, porque o mundo é eficiente em nos mostrar que estamos fora dos padrões em que deveríamos estar. Nossos filhos precisam saber que são apreciados do jeito que são. Nossos filhos precisam saber que são interessantes independente do que têm. Eu, por exemplo, tento nunca conversar com crianças exaltando coisas do tipo: "que linda essa sua roupa", ou "como você é linda". Eu prefiro perguntar: "você gosta de ler?" ou "o que você mais gosta de fazer na escola?".

Mas atenção: ajudar a desenvolver a autoestima não é criar uma autoimagem distorcida, como se a criança fosse a princesa mais maravilhosa do universo. Isso acontece muito com essa geraçãozinha que está aí. Acabam achando-se superiores às demais pessoas - claro, seus pais ensinaram isso! - mas, como li certa vez num texto sobre a geraçãoY, "se todo mundo é especial, ninguém é de fato especial, são todos iguais". Essa realidade pode ser bem frustrante se os pais ensinaram-nas outra coisa. Precisamos mostrar que as pessoas erram, que as pessoas têm defeitos, que há sempre no que melhorar. 

Se uma criança é criada achando que é perfeita e mais importante que as demais pessoas, o mundo vai tratar de quebrá-la. E aí veremos que aquela pretensa autoestima não era sustentável, pois era baseada numa falácia.  

Precisamos fazer isso, porém, sem deixar de exaltar seus pontos fortes. Eu nunca digo coisas depreciativas do tipo "Você é mal-educada!" ou "Você é feia!" quando uma criança faz algo errado, mesmo que seja muito errado. Eu prefiro dizer: "Isso que você fez é muito feio e não combina com a pessoa linda que você é". E também digo outra coisa que adoro, embora minha mãe ache que eu não devia falar isso: "Você acha que esse seu comportamento é igual da bruxa ou da princesa da história? Quem você quer ser quando crescer? Quer ser a bruxa?" Sempre dá certo, pois faz minha filha refletir e decidir qual o comportamento que acha mais adequado.    


Eu acredito que as crianças precisam de disciplina. Acredito que a casa deve ter regras e horários. Desde que minha filha era bebê, ela tem horário certo para tudo. Apliquei com ela o método EASY da Encantadora de Bebês e deu muito certo. Como ela tinha horário para dormir, horário para acordar, horário para se alimentar, horário para atividade etc, ela nunca estava com fome, nunca estava com sono, nunca estava cansada, nunca estava suja, nem entediada. Ou seja, a rotina lhe propiciava paz e a deixava calma. Simples assim. 

Como eu disse antes, acho que é preciso ter regras e também que o seu descumprimento deve ter consequências pré-acordadas. Não são castigos arbitrários. São consequências pelo descumprimento de um acordo: "ok, você não fez sua parte no nosso acordo de que para assistir a novelinha Chiquititas à noite você precisaria comer uma fruta durante o dia? Então, sem TV hoje." Claro que esse "acordo" não é tão democrático assim, porque a criança precisa saber que a mãe aqui sou eu, sou eu quem faço as regras. E ponto. Mas ela também participa do processo, quando a deixo, por exemplo, negociar comigo qual fruta quer comer ou qual verdura será misturada no feijão. Sou eu que mando na casa, isso está claro, mas ela não é um sujeito passivo, ela participa.   
    
Isso me custa? Muito! Fico menos tempo com minha filha no dia-a-dia do que eu gostaria. Então, eu queria que nesse pouco tempo nós pudéssemos estar bem, sem brigas, sem discussões. Às vezes seria fácil pensar: "ah, ela só fez isso, deixa pra lá, não é importante". A coisa em si nem sempre é relevante mesmo. Só que eu me apego ao princípio: se ela fez errado, sabendo que estava errado, precisa haver consequência. É que nem no banco em que trabalho: se uma pessoa roubar um milhão ou apenas um real, não faz diferença, a punição é a mesma, porque o que importa é o ato de roubar. Estou dizendo que às vezes dá muita vontade de tapar os olhos e fingir que não estou vendo nada, mas acho que tenho uma grande responsabilidade com essa criança e não me permito fugir a ela, pelo grande amor que tenho.   


Eu acredito que qualquer violência é inaceitável. Isso quer dizer que sou a favor da Lei da Palmada e que acho absurda a ideia de que se ensina batendo. Isso é irracional. E quando um pai bate no filho porque ele bateu no irmãozinho? Oi? Pode bater ou não pode? 

Se eu nunca bati na minha filha (hoje com 6 anos)? Já, duas vezes. Nenhuma das duas foi para machucar, foi apenas um tapa não muito forte. Mas nas duas chorei muito depois - sem ela saber, logicamente, para eu não perder a moral - e não me conformava com o que eu havia feito. Por que fiz? Porque perdi o controle - coisa que um educador não deve fazer. Mas somos pais, não deuses, e às vezes erramos também. Das duas vezes pedi desculpas depois, mas deixei claro que o que aconteceu foi apenas uma reação descabida diante de um comportamento descabido que ela estava tendo.  

Eu disse anteriormente "qualquer violência". Violência simbólica também é inaceitável. Quer dizer, a imposição, a humilhação, a não-aceitação da personalidade da criança, que possivelmente é diferente da nossa. E a alienação parental? Igualmente repudiável. Violenta-se uma criança quando se fala mal do pai ou da mãe, buscando fazê-la ter sentimentos negativos em relação ao outro. 


Eu acredito que crianças precisam ter tempo para brincar como crianças. Eu queria que minha filha tocasse piano, fosse fluente em inglês e fizesse vários esportes. Acho que isso seria um diferencial quando ela crescesse, no mundo tão competitivo em que vivemos. Mas eu quero muito mais que ela seja feliz. Quero que ela tenha uma vida tranquila, que tenha tempo pra criar suas próprias brincadeiras e possa desenvolver várias competências nesse ato de brincar. Não quero que ela tenha uma rotina maluca de aulas. Espero que, quando ela crescer, eu tenha a possibilidade de propiciar a ela oportunidades escolhidas por ela própria. Um intercâmbio no exterior, por exemplo, para aprender o inglês que não está aprendendo agora.  

Isso quer dizer que minha filha vai apenas à escola? Não, ela também faz natação e ballet, duas atividades que ela adora e para as quais tem talento. Mas lhe sobram três manhãs totalmente livres para brincar, além dos finais-de-semana.

Essa história de sobrecarga de atividades me faz lembrar algo que li num livro sobre educação de crianças enquanto ainda estava grávida: é prejudicial para a criança a sensação de estar sempre atrasada. Tomo muito cuidado com isso, então, mesmo que estejamos atrasadas - e eu verbalize isso - eu nunca deixo que se crie uma sensação de ansiedade e correria. 


Eu acredito que as crianças precisam ser educadas para a solidariedade. Somos egocêntricos e individualistas quando pequenos e precisamos ser ensinados a viver em um mundo de forma solidária, a entender que nós, as demais pessoas, os animais, a natureza e o planeta formamos um todo interligado, tecido juntos - como mostra o conceito de complexidade de Edgard Morin - o que quer dizer que o que afeta um, afeta a todos. Isso deve ser mostrado sobretudo por meio de nossos exemplos.    

Nós duas, em março de 2009

Ufa! Não é fácil ser mãe. Mas ninguém nunca disse que seria. 
Sabem que até hoje muitas pessoas desqualificam as ideias sobre educação que acabei de apresentar a vocês? Dizem que apenas dá certo, porque minha filha é um anjo. Mas será que ela não é um "anjo", justamente porque dá certo? [E não, ela não é um anjo sempre - só para constar] 

E por que escrevi esse post agora? Bem, fiquei bastante impressionada com um vídeo que assisti ontem na internet e compartilho agora com vocês. Eu não gosto de julgar outras mães, pois acho que todas nós (ou melhor, a maior parte de nós) fazemos o que podemos, pensando no melhor para os nossos filhos. Mas o vídeo mostra uma situação em que várias das coisas que falei acima são desrespeitadas. 

Assistam abaixo:



No vídeo, a criança promete à mãe que nunca mais "vai jogar suas maquiagens no cocô". Sério, minhas maquiagens são sagradas e minha filha sabe disso. Eu nem sei a consequência que minha filha teria numa situação como essa. Mas sei que eu, certamente, não faria as seguintes coisas que essa mãe fez: 

1. Expor a criança
Internet é uma coisa muito delicada. Nunca devemos publicar nada sobre nossos filhos de que eles possam se envergonhar futuramente. Não só a criança aparece somente de calcinha no vídeo, como também está numa situação muito constrangedora. Esse vídeo estará para sempre na internet, copiado e recopiado em vários lugares. Mesmo que essa versão que compartilho aqui seja tirada do ar algum dia, ele sempre estará em outro lugar. Uma vez na internet, sempre na internet. 

2. Ameaça de violência física
Se eu ameaçar minha filha de levar uma chinelada, certamente ela rirá, porque sabe que eu nunca falaria isso se não fosse uma brincadeira.
A pergunta é: no que exatamente uma chinelada ajudaria nessa situação?
A mãe teria a maquiagem de volta? Não. 
A criança jamais faria isso de novo? Talvez. E talvez não - quantas crianças apanham e depois continuam fazendo a mesma coisa?
De qualquer forma, essa não seria a forma mais efetiva, porque não levaria a criança a compreender o que sua atitude causou - lembram quando falei sobre "educar para a solidariedade"? Isso implica também aprender a colocar-se no lugar do outro. 
A mãe até ensaiou algo nesse sentido, perguntando à criança sobre a maquiagem dela. Na minha opinião, essa criança devia sim ser privada de algo que gosta muito por um longo tempo - não longo demais a ponto da criança desapegar-se do objeto, pois acho importante o sentimento que ela tem no momento em que pode reaver o que "perdeu", para reforçar a dor da perda.   

3. Igualar-se ao comportamento inadequado
Se é errado jogar a maquiagem no cocô (meu Deus, isso é muito errado, me arrepio só de pensar! rs), por que a mãe está ameaçando a criança de que fará a mesma coisa? Acho que deveria sim perguntar sobre o que ela sentiria se jogassem sua maquiagem no cocô - já falei sobre colocar-se no lugar do outro - mas não ameaçar fazer o mesmo. Afinal, é errado ou não? Pode fazer ou não?   

4. Violência emocional 
Confesso que quase chorei quando a mãe pede para a criança escolher o que ela vai buscar: se o chinelo para apanhar ou a maquiagem para ser jogada no cocô. Eu, que aprendi com minha mãe a colocar-me no lugar dos outros, pude sentir o desespero dessa criança. 
  

Se eu acho que essa mãe é uma mãe ruim? Se acho que é uma pessoa má? Se ela errou querendo acertar? Eu jamais poderia responder a essas questões, não tenho como julgar. A única coisa que posso dizer é: ela agiu em desacordo com muitas coisas em que acredito.

E você, acredita em quê?


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1 comentários:

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24 de julho de 2014 15:15 delete

Oi, Ana!
Se você faz errado, também estou fazendo. Educar é muito mais que impor regras, até porque não existe fórmula para educar uma criança, pois cada uma é única.
Achei o vídeo tão ofensivo para a criança que denunciei no youtube.
Beijus,

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