Namoro ou liberdade: o que você prefere?

O filme Namoro ou liberdade - cujo nome original é Are we officially dating?, ou seja, Estamos namorando oficialmente? - poderia ser apenas mais uma comédia romântica americana que nos propicia algumas risadas enquanto assistimos, mas nada nos acrescenta após sairmos do cinema. [não estou criticando esse tipo de filme, pois ele realmente cumpre o seu propósito de entretenimento]


No entanto, se estivermos atentas à mensagem que o filme passa, sairemos do cinema pensando sobre uma patologia masculina muito atual: a fobia a relacionamentos

Contextualizando as pessoas que estão em relacionamentos estáveis e não têm ideia do que eu estou falando: lembram há algumas décadas quando os homens temiam a palavra "casamento"? Pois é, agora a palavra "namoro" parece ter o mesmo impacto.  

No princípio, eu achava que isso era um fenômeno dos homens de Brasília. Depois, conversando com amigas de outras cidades, percebi que parecia atingir o universo masculino brasileiro como um todo. No ano passado, uma amiga de Viena me contou que isso acontecia no mundo inteiro. O filme Namoro ou Liberdade vem confirmar que realmente é um comportamento que ultrapassa fronteiras - pelo menos, no mundo ocidental.   

Assista o trailer (legendas PT de Portugal):

Meu objetivo não é contar o filme. Quero ater-me apenas a um comportamento de dois dos personagens principais: eles "colecionam" mulheres em uma lista - no Brasil, seria a lista das mulheres que estão pegando

Não estou aqui fazendo julgamento de valor, se isso é bonito ou feio, certo ou errado. O fato que quero chamar a atenção é que em momento algum eles têm a intenção de terem um relacionamento. Ao contrário das mulheres, que mesmo que saiam com o cara na mesma vibe descompromissada, geralmente estão abertas para rolar algo mais.   

É claro que eles não são totalmente sinceros em relação a isso quando marcam a primeira saída - nem sempre mentem, às vezes simplesmente omitem (às vezes mentem mesmo).  Logicamente eles não ligam no dia seguinte, às vezes nem na semana seguinte, ou semanaS seguintes. E depois, caso tenham gostado de você, mandam uma mensagem chamando de "sumida" e, claro, querendo te ver novamente.

Aí vocês, pessoas casadas que desconhecem esse comportamento, me perguntam: mas por que uma mulher seguiria saindo com um cara desses? Vocês não se valorizam? 

Bem, existem várias explicações. Entendam que o comportamento deles é meio esquizofrênico e por vezes nos confunde também: dá pra acreditar que eles são super carinhosos, amáveis, gentis, que eles se abrem bastante, contam coisas íntimas sobre família, agradecem pela forma que fazemos bem a eles ao ouvi-los etc etc etc? 

Na verdade, eles nos propiciam "momentos-como-namoro" - e com uma certa regularidade. E isso é muito bom. Além disso, considerando que é um comportamento generalizado, muitas vezes ou é isso ou é nada.

Mas aí acontece o momento em que no filme eles chamam de "E então?" - ou seja, a hora em que a mulher pergunta: e aí? No que isso vai dar?  E, geralmente, essa é a hora em que tudo acaba. Tenho um amigo que diz que essa situação-indefinida costuma se estender por no máximo uns três meses - mas ele também diz que ele é mestre em fazer com que se estenda mais.  

Ao mesmo tempo que tenho certeza que muita gente - homens e mulheres - está lendo isso e pensando que é bem assim mesmo, aposto que tem gente que ainda não está compreendendo muito bem. E pensando que estou exagerando ou generalizando demais. Vamos então tomar emprestadas as palavras da dupla Zé Ricardo e Thiago, para que essas pessoas compreendam melhor. É assim que funciona:   
 
 


Pode Ou Não Pode

Zé Ricardo e Thiago

Agora sou eu quem mando,
Agora, eu que decido
O que pode ou não pode
Há! Deixa comigo!

Beijar na boca, pode!
Fazer gostoso, pode!
E se apaixonar?
Não pode! Não pode! Não pode!

Tirar a roupa, pode!
Morder o pescoço, pode!
E ligar no outro dia?
Não pode! Não pode! Não pode!

Dar presente, pode!
Fazer surpresa, pode!
E se for aliança?
Não pode! Não pode! Não pode!

Oh oh, oh oh, oh oh, oh
O que pode ou não pode
Eu que decido meu amor

Oh oh, oh oh, oh oh, oh
O que pode ou não pode
Eu que decido meu amor

- Zé, as Turbinadas?
- Pode!

- E beijar no banheiro?
- Pode!

- E namorar com você?
- Não pode! Não pode! Não pode!

- Fazer loucura?
- Pode!

- E dar um perdido?
- Isso pode!

- Postar foto na internet?
- Não pode! Não pode! Não pode!

Oh oh, oh oh, oh oh, oh
O que pode ou não pode
Eu que decido meu amor

Oh oh, oh oh, oh oh, oh
O que pode ou não pode
Eu que decido meu amor


Estão vendo que eles chamam de "meu amor"? Lembram o que eu falava sobre comportamento esquizofrênico? Hehehe Eles também gostam muito de nos chamar de "linda". Sei lá, acho que é para não confundir os nomes. Eu já fico logo antenada: o cara me chamou de linda, já tem meu pé atrás. ;)

Voltando à análise do filme. Agora quero falar do viés da submissão da mulher (como se já não o fosse quando o homem manipula a "pseudo-relação" desse jeito). Mas, enfim, alguém pode alegar que as mulheres aceitam e que, no fundo, elas estão no comando - porque sim, geralmente somos nós que dizemos que queremos parar. Ok, poderíamos fazer uma análise mais aprofundada sobre isso, mas deixa assim. O que me chamou mais atenção e me deixou furiosa  é que por trás do filme está a ideia de que os homens só agem assim porque não acharam a "mulher certa". 

WTF???

Peraí, deixa eu entender: os homens só possuem esse comportamento por nossa culpa? Por que nós não somos "a" mulher certa? Claro... a culpa é das mulheres! Por que não pensei nisso antes? #sqn

Machismo é pouco, né baby? 

Deixa eu explicar uma coisa. Não, a culpada não é a mulher. Não somos nós que não somos boas o suficiente.

Para começar, nem existe essa história de "a mulher certa". Alô?? Já passamos da idade dos contos de fadas, só para constar. O que existem são pessoas com afinidades que gostam de compartilhar momentos juntos - tanto bons, quanto ruins. 

Ok, agora você homem que acha esse comportamento bacana está pensando: "sim, e qual o problema de 'compartilharmos momentos juntos', aproveitando o que várias pessoas têm de bom, já que não existe apenas uma 'pessoa certa' mesmo? Por que se prender a apenas uma e abrir mão de todo um mundo de possibilidades?"

Não sou eu que responderei isso a você. É a vida. 
Deixe-me apenas adiantar uma informação: não é a "mulher certa" que vai aparecer um dia e te fazer mudar de opinião. É você que vai se permitir enxergar uma mulher desse jeito. 

Meninas, sei que algumas de vocês devem estar querendo que eu responda como uma mulher de verdade encara uma situação dessas. A resposta é muito simples: uma mulher de verdade faz o que tem vontade, do jeito que tem vontade.

Se quiser estar na lista de alguém - ou alguéns, e também ter a sua própria lista (por que não?) - vá em frente, a vida é sua.

Se preferir ficar quietinha e não desperdiçar sua energia em pseudo-relacionamentos desse tipo, você está certíssima também.

O importante é que você esteja ciente de suas próprias vontades, de seus valores, de suas crenças, de seus desejos e não se sujeite ao que outra pessoa quer. Não se violente.

Na verdade, "o que pode ou não pode" quem decide é VOCÊ.

#naosesujeite

Compartilhe este artigo

Artigos relacionados

Próximo
« Anterior

Comentários dos leitores e leitoras são muito bem-vindos, pois enriquecem o blog com diferentes pontos de vista e relatos de experiências.
Mas estejam atentos às regras básicas de ética e boa convivência. Comentários em desacordo com elas ou que fujam ao tema do post poderão não ser aceitos. EmoticonEmoticon