Desapego - Sugestão de leitura infantil

Julia e os Balões é um livro de Marco Coiatelli ilustrado por André Neves. 
De uma forma singela, o autor aborda um assunto difícil de trabalhar até com adultos: o desapego



- Julia, nascemos dum pedaço de papel e tanto podemos nos tornar um papel para desenhar e guardar ou para rabiscar e jogar fora. [fala de um balão]
- Vocês são felizes vivendo assim? - perguntou Julia.
- Somos muito felizes com as surpresas da vida e, enquanto não partimos, brincamos de fazer o outro feliz.
- E o que vocês sentem quando as pessoas soltam os balões pelos ares?
- Quando o momento de viajar se aproxima, começa a realização do nosso sonho. Guardamos na memória do coração a lembrança de quem nos soltou e partimos. 

Delicado e profundo, não é mesmo?

Fica para reflexão: como estamos trabalhando nosso desapego de coisas, de pessoas? E do passado?  

No final do ano, mudei-me para um apartamento menor e precisei desfazer-me de muitas coisas. Foram sacos e sacos, caixas e caixas. O que mais me impressionou nesse processo - muito dolorido, tenho de confessar - nem foi a quantidade de coisas que eu doei, mas sim a quantidade de coisas que foram direto para o lixo, sem utilidade. Coisas as quais eu me apegava, que por algum motivo eram importantes para mim.

Certo dia, em meio à arrumação da mudança, uma amiga me contou que havia sonhado comigo. No sonho, eu e ela conversávamos sobre seguro contra incêndio. Diante disso, fiz duas coisas:

1. Um seguro residencial (do BB, claro). 
2. Passei a selecionar o que eu guardaria e o que eu doaria de uma forma mais simples, perguntando-me: se minha casa incediasse e eu perdesse tudo o que eu tenho (Deus me proteja!), por esse objeto aqui eu sofreria muito, ficaria apenas um pouco triste ou pensaria "ah, tudo bem, isso é o de menos"? Se fosse a terceira opção = doação. Ficou bem mais fácil desse jeito.    




Esse assunto de desapego, balões e despedidas, lembra-me de uma situação muito dolorosa que vivi em 2006. Com a morte do meu melhor amigo no acidente da GOL (sim, aquele do Legacy), enquanto ainda o corpo não havia sido localizado, fizemos uma homenagem a ele no parque Olhos D'Água, aqui em Brasília. 

Lembro que chovia. Com uma música ao fundo, nós (os amigos) fizemos preces e declaramos nosso amor. Foi lindo, apesar de eu não conseguir parar de chorar. 

No final, todos segurávamos balões de gás hélio na cor branca - um para cada ano de vida que ele tinha, 31 balões no total. Fomos soltando os balões, cada um a seu tempo, em meio àquele lugar que nós dois chamávamos de "Colina dos Teletubies" (lembro-me como se fosse ontem quando fomos juntos conhecer o parque depois de sua inauguração e o quanto rimos por ele ter um laguinho chamado "Lagoa do Sapo" - e, claro, uma colina igual a dos Teletubies)

Adivinhem se eu consegui soltar o balão? Claro que não. Todo mundo soltou e eu lá, agarrada na fita que o prendia, como se aquilo pudesse segurar meu amigo comigo. Minha mãe me abraçando, me incentivando a soltar. E eu lá, parada, segurando um balão como quem segura a própria vida. Até que consegui soltar. Deixei ir. Fiquei observando aquele balão sumir ao longe. E, admito, fantasio que ele ainda está voando por aí até hoje. 

Mas secando as lágrimas e voltando à indicação de leitura para as crianças:

Julia e os Balões
De Marco Coiatelli
Editora da UCG - R&F Editora, Goiânia, 2006.

A história é contada em português e no verso de cada página em espanhol. 
(Vi na internet que há também a versão em inglês) 

#ficadica


E como disse o balãozinho à menina Julia: 

Sejamos felizes com as surpresas da vida e, enquanto não partimos, brinquemos de fazer o outro feliz.



Saudade, Naninho!



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3 comentários

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26 de janeiro de 2014 13:12 delete

Amei a dica do livro e obrigada por compartilhar essa linda lembrança de seu amigo! Obrigada.

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Malú
26 de janeiro de 2014 19:47 delete

Me fez chorar! E eu estou precisando desapegar...

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