É preciso aprender a amar

Como passamos a amar alguém, alguma coisa ou até mesmo a nós mesmos?
Nesse pequeno texto, Nietzsche reflete sobre a forma como o amor se desenvolve. Faz isso brilhantemente (em se tratando de Nietzsche, isso é uma redundância, não?), comparando esse movimento com a apreciação de uma nova música. 

“Eis o que nos acontece no domínio musical: é preciso antes de tudo aprender a ouvir uma figura, uma melodia, saber discerni-la com o ouvido, distingui-la, isolá-la e delimitá-la enquanto vida para si: em seguida é preciso esforço e boa vontade para suportá-la, apesar de sua estranheza, usar a paciência para seu aspecto e sua expressão, ternura pelo que ela tem de singular; – vem enfim o momento em que nos habituamos a ela, em que nós a esperamos, em que sentimos que nos faria falta, caso se ausentasse e daí em diante ela não deixa de exercer sobre nós sua imposição e sua fascinação, até que tenha feito de nós seus amantes humildes e maravilhados, que não concebem melhor coisa no mundo e só deseja a ela e mais nada.
Porém não é só na música que isso nos acontece: é justamente assim que aprendemos a amar todas as coisas que agora amamos. Acabamos sempre por ser recompensados por nossa boa vontade, nossa paciência, nossa equidade, nossa ternura com a estranheza, pelo fato de que a estranheza pouco a pouco se desvende e venha  se oferecer a nós como nova e indivisível beleza: aí está a sua gratidão por nossa hospitalidade.
Quem ama a si mesmo só pode ter chegado a isso por este caminho: não há outro. Também se deve aprender a amar.”
(Gaia Ciência, af. 334, Friedrich Nietzsche, 1981, p. 214)

Foto: zuarte bolsas - Flickr CC

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