Encantos e perigos de um homem histérico

Eros quando solteiro foge diante de um possível relacionamento profundo. Mas gosta de manter uma mulher apaixonada sem assumi-la (pela necessidade da certeza de ser amado). Eros histérico continua freneticamente seu jogo de sedução, porém, finalizada a sedução ele não sabe mais o que fazer, ali entra em territórios desconhecidos. Evita um vínculo mais sólido porque seria deparar-se com a sua impotência diante de algo ou de uma situação e dessa forma fica evidenciado aquilo que poderia ter sido e não foi: o verdadeiro homem.

Makena G -  Flickr CC   
Toda mulher com uma relativa experiência afetiva é capaz de reconhecer perfis de homens com os quais se deve estar alerta. É quase como se uma luz piscasse com o texto: "Perigo! Mantenha distância".  Apesar disso, não raro envolvem-se com eles mesmo assim e saem chorando no final.

Dentre esses perfis evitáveis que simplesmente não conseguimos evitar, está o que a Senhorita Patinete chama de  Heros histéricoHoje entenderemos melhor como funciona esse tal homem histérico e como ele age para deixar as mulheres de quatro.   

O texto é de uma grande amiga, que o assina como Senhorita Patinete. Apreciem e, se desejarem, deixem seu comentário ao final. 


Eros Histérico: a histeria do sexo masculino

Por Senhorita Patinete

Pensem no seguinte estereótipo masculino: seguro, frio, corajoso e provedor. Façam ainda outro exercício mental e pensem em um homem do tipo vaidoso que se preocupa com a forma física, com os cabelos, com as roupas e dá valor exacerbado à carreira. Alguns, ainda, superam a preocupação físico-material e apresentam uma maneira de ver o mundo de vanguarda sendo homens de cultura admirável. Alguns dos homens com essas características apresentam o estereótipo histérico de personalidade.

No início da psicanálise, a histeria masculina foi questionada, pois a histeria era mais estudada em mulheres em função da falta do falo. “Contudo, os homens são, com mais frequência do que reconhecemos, histéricos. Observamos, na atualidade, a acentuada presença da histeria masculina, como no caso do don juanismo”.

Leia também nesse blog: 

Propomos chamar o homem do nosso texto de Eros histérico
E quem é esse homem? É o tipo de cara que vocês devem ter conhecido pelo seguinte motivo: alguns são “Don Juans” incuráveis, outros não permanecem em um relacionamento por muito tempo, outros costumam manter relacionamentos infelizes e testam seu poder de sedução de maneira discreta, mas despudorada. Eles apresentam-se de várias maneiras e podem até disfarçar-se bem. Mas todos têm algo em comum: são extremamente sexuais e sedutores.




Na histeria, o desejo é sempre insatisfeito, o histérico recusa o gozo para manter o desejo insatisfeito com o gozo da privação. É do tipo “não ata nem desata” assim sendo, o histérico: “se oferece e se guarda, oferece e se furta, provoca e escapole”
Eros Histérico não quer desfrutar uma boa transa ou bom relacionamento.  Quando casados, projetam na mulher a imagem da mãe e perdem todo o interesse sexual por ela. Assim, o combustível do histérico é a sedução. Tendo mulher ou mulheres para envolver-se, mantêm seu impulso sexual aceso. O importante é que nem sempre concretizam o ato sexual em si, pois, como citado antes, o histérico recusa o gozo.

Segundo o psicólogo suíço Carl Gustav Jung, “Don-juan tem um complexo materno, isto é, não se libertou da mãe e procura sua imagem em todas as mulheres, nunca encontrando. A origem do comportamento estaria na adolescência. Nessa fase é natural que o filho se torne agressivo com a mãe, pois precisa se separar, ter a própria identidade. Se ela tenta mantê-lo calmo e fraco, realizando todos os seus desejos, acaba por dificultar a necessária separação, que o tornaria um homem mais forte e capaz de amar outras mulheres. Impossibilitado de se libertar, o rapaz pode se tornar um dom-juan.”

Eros histérico é sexual evitando vinculo próximo com quem seduz, pois o jogo da sedução é mais valioso do que o ato sexual em si. Na vida social, Eros histérico tem necessidade de ser aceito, pois, subjetivamente (mesmo que não tenha a consciência disso) acredita que não foi amado. Em algum momento da vida, Eros foi rejeitado e lidou muito mal com o desprezo.  Agora necessita da garantia que é amado por alguém e por isso faz o tipo de jogo da “não decisão de vida”.

Quando Eros tem uma esposa ou namorada é muito carinhoso com ela para disfarçar a característica sedutora. Eros, porém “é um ser insatisfeito, está à mercê do outro. Ele está em recusa do desejo. A cada mulher ele é obrigado a dar exatamente o que ela reclama: ele não tem o direito de errar. Sua pretensa sedução é a docilidade”. E o fato de seduzir outras mulheres não está ligado ao fato de concretizar um relacionamento ou um ato sexual em si, talvez o que Renato Russo chama de "sexo verbal" ou o popular “flerte”.

Eros pode tender para o traidor inveterado para formar vínculo e para não se mostrar dependente. Outro fator relevante para Eros é mostrar ao mundo o quão “garanhão” pode ser. “Acabam arrumando não uma, mas várias amantes para não se sentirem presos ou dominados por nenhuma. O medo de se tornarem dependentes, como foram da mãe, faz com que agridam suas mulheres de forma cruel, traindo ou abandonando”.

E quem são as mulheres que entram no jogo do Eros Histérico, seja ele comprometido ou solteiro? Seriam elas vítimas? Essa discussão daria outro texto e não é esse o objetivo no momento. Mas o que se pode dizer é que têm mulheres e mulheres.

Para as que são casadas e mantêm um perfil também histérico, em princípio isso parece interessante, porém é uma pseudo-relação doente. Eros e a figura objeto de sua sedução ficariam ambos na situação de “masturbação mental”. Ambos precisam de ajuda profissional. A dualidade de vida não é saudável e podem ficar dessa maneira por uma eternidade. “Don Juan é um errante no amor, uma vez que amar remete à castração (um não terá e não será o que falta ao outro), faz defrontar-se com um outro desejante, distinto, com as diferenças e o respeito à alteridade”. 

Eros precisa de uma aprovação externa da sua masculinidade senão toda estrutura necessária para provar sua virilidade desmonta. Eros histérico teme o amor porque “Amar, é dar o que não se tem", cita Lacan. “Amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se tem, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é necessário se assegurar de sua falta, de sua "castração", como escreveu Freud.”

Eros quando solteiro foge diante de um possível relacionamento profundo. Mas gosta de manter uma mulher apaixonada sem assumi-la (pela necessidade da certeza de ser amado). Eros histérico continua freneticamente seu jogo de sedução, porém, finalizada a sedução ele não sabe mais o que fazer, ali entra em territórios desconhecidos. Evita um vínculo mais sólido porque seria deparar-se com a sua impotência diante de algo ou de uma situação e dessa forma fica evidenciado aquilo que poderia ter sido e não foi: o verdadeiro homem.

É importante dizer que as dificuldades de Eros Histérico diante de vínculos duradouros e emoções não são apenas reflexos do que nós carinhosamente chamamos "crápula ou cafajeste” é algo da sua estrutura psíquica.  E isso quer dizer que apesar de toda encenação de força e virilidade, por dentro Eros histérico é um homem frágil, muitas vezes incapaz de formar um vínculo e comandar subjetivamente e o eixo de sua vida cheia do tédio que ele tenta dissipar com o ato da sedução.

Você conhece alguém com esse perfil? Considera-no um "vilão"? Conte pra gente nos comentários. 



Referências:

  • SOUZA, Danielle A. Psicanálise & Barroco em revista v. 9, n.1: 115-125 jul.2011.
  • QUINET, A. A lição de Charcot. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
  • BRANCO, Leniza Castelo. Caras, São Paulo: Editora Abril, 2012.
  • MILLER, J.A. O Amor e a psicanálise Disponível na Internet <http://www.psicologiamsn.com/2011/12/amor-psicanalise-alain-miller.html>acessado em 4 de julho de 2012.

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10 comentários

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Anônimo
8 de julho de 2012 17:26 delete

Muito interessante, recomendo para uma visão ainda mais completa a leitura de:
S. FREUD, “Sobre o narcisismo: uma introdução” in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XIV, Imago, Rio de Janeiro, 1996.

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Mariana
8 de julho de 2012 19:30 delete

Sabe que eu vejo um pouco de mim nisso tudo?! ;)

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Anônimo
8 de julho de 2012 21:09 delete

A histeria é comum em mulheres também. Talvez fosse interessante você falar das mulheres histéricas. Apesar de que nos homens os efeitos são devastadores!

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Lane
19 de julho de 2012 13:22 delete

Adorei!!! parabéns pelo post! texto riquíssimo e numa linguagem simples e agradável. Tenho amigos que se encaixariam perfeitamente nessa sua analise e, provavelmente, alguns relacionamentos também. Não creio que se seja um vilão, se tais traços fluírem de forma perceptível somente pra nós (ou não), ou seja, manifestações do inconsciente, ao qual ele não se da conta; Mas, por outro lado, se tal "conduta" seja mais ou menos, na linha do cafajeste intencional, ai o conselho q dou às moçoilas é: "não vá que é barril!" rsrs

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lucas
19 de abril de 2013 17:19 delete

po, eu estou em cada linha deste texto.
que desgraça! tem cura pra isso???

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Anônimo
8 de junho de 2013 01:07 delete

Muito interessante! Eu mesmo sendo gay costumo seduzir mulheres só pra me sentir bem ao despertar interesse e desejo e só me dei conta lendo aqui!

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Anônimo
13 de junho de 2013 15:45 delete

Meu marido é assim e estamos com problemas no casamento (dois "histéricos" não se "bicam"). Há solução para esse relacionamento? Já faço terapia e, talvez, ele também fazer terapia nos ajudaria?

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10 de outubro de 2013 17:10 delete

Perfeito, como vc usa uma linguagem simples para explicar algo tão complexo e difícil de explicar ao outro. Sou estudante de psicologia, e acabei me envolvendo com meu professor (psicologo - arquétipo junguiano). Faço terapia, e minha psicologa me aconselhou que eu buscasse algumas coisas que falasse da histeria no homem. E simplesmente, isso se encaixa perfeitamente com a personalidade dele. Não me sinto uma vitima, muito pelo contrario, eu seduzi ele tb, só que diferente dele, eu me envolvi, me apaixonei e só estava querendo entender o pq de tudo isso (?!). Pois o simples fato de eu fazer psicologia e dele ser Mestre em Psicologia, não nos isentou de sermos "vitimas" de coisas desse tipo. A condição de estudante me deu somente um olhar diferenciado, e me proporcionou uma absorção maior do conteúdo para que eu pudesse levar à ele o que estava acontecendo e que eu tinha conhecimento da coisa toda, e não uma aceitação fácil com o fato ocorrido. Abs...e siga sempre assim!

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Anônimo
22 de outubro de 2013 17:29 delete

Na época de Freud a histeria era conhecida como mal do útero, já que era quase que exclusivo das mulheres, a histeria em homens é raro, e sim tem tratamento, uma boa análise ajuda o sujeito, já que isso por vezes causa perturbação na vida sexual e sentimental das pessoas com histeria. Muito bom o texto, mais agradável de ler do que as publicações do próprio Freud sobre o tema.

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Anônimo
1 de junho de 2014 19:32 delete

Conheço uma pessoa assim, mas acho que a própria pessoa é vítima da situação pois sofre muito com tudo isto, é uma ótima pessoa. O interessante é que a mãe sofreu acidente durante o período de gestação, talvez isto explique este comportamento.

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