Viver entre dois amores

"Eu te julgava, até acontecer comigo..."

Para refletirmos se é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, primeiro façamos uma distinção importante: trataremos aqui de sentimentos e não de atração
Foto: pussnboots - Flickr CC
É natural que o ser humano sinta atração por outras pessoas mesmo estando comprometido num relacionamento, atração esta que pode ser de naturezas diversas, como física ou intelectual. 

Lembrando que sentir atração não quer dizer sucumbir a ela - os seres humanos são dotados de razão e auto-controle e, a maior parte deles, não reage animalescamente perante uma situação como essa. Ou reage?

De qualquer forma, não é disso que trataremos neste post, mas sim de uma questão mais complexa, na qual não conseguiremos chegar sem passar pelo dilema: "Qual a diferença entre amor e paixão?" O Google nos dará várias definições, mas a mim elas parecem superficiais e reducionistas. "Paixão não é amor", dizem alguns. "Paixão é amor ardente", diz o dicionário Aurélio.

Pra mim, pessoalmente, são coisas que se confundem: eu enxergo a paixão como um amor em potencial e, como tal, tem amor nela contido como uma semente, que pode ou não germinar (isso me faz lembrar de minhas aulas de filosofia na UnB). Nem toda paixão será amor. Mas será que todo amor começa com uma paixão?  Mistérios...

Quando o amor começa a se desenvolver dentro do processo apaixonado é uma dúvida que acredito que poucos tenham a capacidade de distinguir. Eu mesma não tenho. Mas também pouco importa. Deixemos aos psicólogos a tarefa de estudar sobre isso. A vida já é bem complexa para ficarmos racionalizando sobre essas coisas: limitemo-nos a senti-las que já está de bom tamanho.

Ok, você gosta mesmo de definições, não é mesmo? Então considere a seguinte:
O amor é um sistema complexo e dinâmico que envolve cognições, emoções e comportamentos relacionados muitas vezes à felicidade para o ser humano; diferiria da paixão por sua maior permanência e menor efusividade que a paixão, embora não se omitam os estados de alegria e de tristeza relacionados a sua presença ou mesmo a sua ausência para o ser humano. Dificilmente, a paixão resiste a mais de dois anos. Pode-se dizer, assim, que geralmente estar com o(a) mesmo(a) parceiro(a) por mais de dois anos seja um forte indício do amor presente cimentando a relação e que assim, o amor comporta adversidades enquanto, por sua vez, a paixão não. Fonte: O percurso do amor romântico e do casamento através das Eras

A escrita deste post suscitou uma boa discussão na mesa do almoço com colegas de trabalho. Um deles, psicólogo, desenhou o que ele chamou de espectro do amor-paixão, que é interessante para percebermos que a paixão não necessariamente acaba e dá lugar ao amor:


Agora voltemos à pergunta inicial: é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo? Com toda certeza, sim! Lembremos que existem tipos diferentes de amor e que você pode encontrá-los em sua relação com diferentes pessoas, sendo até, de certo modo, complementares:
  • Eros - um amor apaixonado, fundamentado e baseado na aparência física
  • Psiquê - um amor espiritual, baseado na mente e nos sentimentos eternos
  • Ludus - o amor que é jogado como um jogo; amor brincalhão
  • Storge - um amor afetuoso que se desenvolve lentamente, com base em similaridade
  • Pragma - amor pragmático, que visualiza apenas o momento e a necessidade temporária, do agora
  • Mania - amor altamente emocional, instável; o estereótipo de amor romântico
  • Agape - amor altruísta; espiritual
Fonte: Wikipedia

Observado isso, uma próxima pergunta possível seria: podemos nos relacionar amorosamente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo? [ressaltando que estamos falando de nossa cultura, que é monogâmica]

Deixemos julgamentos morais de lado, como sempre tento fazer neste blog - embora nem sempre consiga. Sabemos que a resposta prática a essa pergunta é sim, afinal, quanta gente não faz isso, né? Mas se a questão fosse: devemos fazer isso? Eu, na minha opinião própria e pessoal [sendo redundante propositalmente para deixar bem claro que falo por mim], acho que não.

Não digo isso pensando nos nossos valores sociais construídos historicamente. Sinceramente, seria até legal se fôssemos capazes de nos relacionar com pessoas diferentes, tendo relações diferentes, encontrando em cada uma delas algo que faz bem à nossa vida e, assim, vivendo mais feliz. Mas não creio que sejamos capazes.

O que geralmente ocorre é uma situação em que, no mínimo, uma das partes envolvidas desconhece o que está acontecendo, o que implica um problema ético. Sei que existem no mundo algumas pessoas mais desapegadas, mas a maior parte de nós, no que me incluo, tem ciúmes e vê a exclusividade como uma prova do sentimento do outro. Não sou evoluída ao ponto de pensar: "neste exato momento ele está lá dando carinho pra outra, mas nem me importo". Ou de descobrir uma traição e responder: "tudo bem, querido, isso acontece".

Portanto, apesar de achar que somos plenamente capazes de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, ou amar uma e ser apaixonado por outra, não acho que devamos nos envolver em situações como essas. Porque é o tipo de situação que, no mínimo, uma pessoa sairá ferida. Ou duas. Ou as três. [O que não quer dizer que eu nunca tenha feito isso e que nunca vá fazer de novo]



O limite da satisfação de nossos desejos deveria ser o sentimento do outro. Mas nem sempre é.

Se você está lendo este post porque está vivendo uma situação como esta, não pense que lhe desaconselharei a seguir com ela. Mas também não incentivarei a continuar. O que direi é: cuidado com as pessoas as quais você ama.  Cuidado com você. E seja feliz!


Fontes de consulta:

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4 comentários

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7 de agosto de 2011 00:15 delete

Como citaste, existe muitos amores, primeiro amor, segundo amor e...assim por diante, mas para mim só existe um amor, independente quando aconteceu(no meu caso não foi do meu primeiro namorado e nem quando descobri que poderia esatar apaixonada), foi quando senti amor, paixão,sofrimento, ciúme,revolta,dor na boca do estômago...nunca mais aconteceu isso....Esse foi meu único amor!!!
Paz e bem

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7 de agosto de 2011 12:40 delete

muito bom o post, gostei :)
se quiser, eu sigo seu blog, se vc
seguir o meu tbm!
notasperfeitas.blogspot.com

abraço

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7 de agosto de 2011 17:54 delete

Ótima reflexão, Flor!

É um tema bem complexo.

Eu sou de natureza monogâmica, mas já vivenciei essa situação de estar com o coração e o pensamento em dois "lugares".

Não foi nada fácil e ninguém saiu feliz. Levei algum tempo juntando caquinhos e isso só fez reforçar minha preferência por uma relação de cada vez.

Abraços!

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25 de agosto de 2011 22:44 delete

Parabéns pelo post. Vivi os dos lados dessa situação e sei que ambos nos colocam numa encruzilhada: seguir ou não com a relação? Qualquer que seja a decisão, as pessoas envolvidas saem feridas. Não há como evitar o sofrimento, seja ele por não ceder ou por se regalar. Como o Max Martins, prefiro uma coisa de cada vez.
www.diariodeumamulherdespeitada.wordpress.com

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