A união homoafetiva na época do preconceito em massa

Em tempos de discussão sobre o material do MEC contra homofobia, alcunhado preconceituosamente de kit gay, e do julgamento no Supremo Tribunal Federal do reconhecimento da união homoafetiva (sessão do STF interrompida ontem que será retomada hoje), você já parou para refletir sobre o que realmente acha sobre lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros?

Mais do que isso, já pensou que apesar de ter o direito de ter uma opinião pessoal sobre o assunto, ela efetivamente não interessa? Quero dizer: se você acha certo ou não, normal ou não, o problema é seu. Agora o problema passa a ser nosso no que tange ao princípio de igualdade absoluta expressa em nossa Constituição Federal. Igualdade que, mais do que legal, é moral.

Esses dias uma pessoa muito querida me perguntou pelo Gtalk: "Amiga, você é preconceituosa? Continuaria minha amiga se soubesse que namoro uma mulher?" Ao que respondi: "Óbvio, né"  e a conversa precisou ser interrompida.

No dia seguinte, perguntei a ela se tratava-se de uma situação real ou hipotética. "Real", ela respondeu. E completou: "Mas não queria perder sua amizade". Respondi na hora: "Boboca".

A conversa tocou-me muito. Não pelo fato de ela namorar outra mulher, porque isso não faz diferença alguma pra mim. Lembro-me do Renato Russo falando numa entrevista que "amava pessoas", independente de sexo. Sendo bem sincera, a única pessoa que eu não gostaria que me revelasse ser gay seria o meu marido, por motivos óbvios - mas, como hoje não tenho marido, não corro esse risco.


The Death of Hyacinthus - Merry-Joseph_Blondel, (Domínio Público)‎

Não vejo motivo para impedir que um amor (ou atração física) se concretize porque aconteceu entre duas pessoas do mesmo sexo. Tem gente que diz que isso não é natural, que é contrário a Deus ou até que é um transtorno mental. Desculpem, mas não concordo com nada disso. Respeito as opiniões baseadas em crenças religiosas, desde que elas também respeitem as pessoas - como Jesus ensinou com seu exemplo.

Aqui eu enfatizaria que nunca tive nem pretendo ter experiências homossexuais, mas, de certo modo, seria preconceituoso querer deixar isso claro, né?

Voltando ao que me deixou tocada com a situação: o receio dela de perder pessoas por causa disso.

Que raios de sociedade preconceituosa é essa que faz com que seus membros tenham sentimentos como esses? Ok, deputado Bolsonaro explica: quando perguntado no Programa CQC (veja vídeo aqui) o que faria se tivesse um filho gay, respondeu: "Isso nem passa pela minha cabeça, porque eles tiveram boa educação. Eu fui um pai presente, então não corro esse risco". Ou seja, homossexuais são pessoas mal educadas, por pais ausentes. Ai, meu sais... Leia também: Bolsonaro provoca Jean Wyllys com declarações homofóbicas.

Essa amiga é uma das pessoas mais inteligentes que conheço. Não apenas tem o QI acima da média, como também possui uma enorme sensibilidade e talento. E é linda! Ah, só para constar, também foi muito bem educada.


CC Flickr - philippe leroyer

O que eu diria a ela?
Que se alguém deixar de se relacionar com ela por sua opção sexual, que agradeça. Sinceramente, agradeça. Porque imagino que não seja desse tipo de pessoa que ela queira a amizade, mas sim de pessoas que aceitem os amigos como são. E aceitem de verdade.


Julgamentos, preconceitos? Precisamos repensar sobre eles, porque duvido que qualquer ser humano que esteja lendo este post nunca tenha sido injustamente julgado ou alvo de preconceitos por algo, mesmo que se considere tendo uma conduta irrepreensível - e, talvez, até por isso mesmo.

Duas coisas para termos sempre em mente:

  • Meu ponto de vista é apenas a vista de um ponto, e não existe verdade absoluta. Os meus julgamentos são meus: vistos sob os referenciais de outras pessoas, eles podem estar equivocados.
  • Atire a primeira pedra quem nunca pecou. Então, mesmo que você considere a homoafetividade um pecado, que não aceite discutir as premissas que lhe levam a acreditar nisso, é preciso respeitar quem questiona e aceitar as diferenças. Como eu disse antes, não importa o que é certo ou errado, mesmo porque isso é muito relativo. O que importa é o respeito. 

Atualização: 
Por unanimidade, o Supremo reconheceu hoje a união estável de homossexuais. Para continuarmos a discussão sobre o assunto, leia a notícia que saiu há pouco no UOL e, em seguida, os vários comentários preconceituosos sobre ela. 

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3 comentários

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5 de maio de 2011 11:39 delete

Olá Ana,

Para começar, teu texto é brilhante,

Comecei a entender a dinâmica da homossexualidade, de maneira mais clara e efetiva, após ler o livro de Jorge Andrea, psicanalista paulista, chamado Forças Sexuais da Alma. Ele fala a respeito dos vórtices sexuais..

E deixo assinado abaixo, a minha concordância plena pelo respeito como tratasse o tema.

Abraço

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6 de maio de 2011 00:48 delete

O preconceito é prova de ignorância. Confesso que ultimamente tenho me surpreendido com alguns casos de saída do armário e um deles, foi o ex de uma amiga. O casamento esfriou e eles tentaram de tudo, daí na terapia de casal, surgiu a questão da homossexualidade que ele não trabalhou na época que descobria o sexo. Mas daí, eles ainda se amam, mas um amor que o sexo não se encaixa. Será que necessariamente precisa haver sexo para duas pessoas se amarem ou nós que misturamos tudo?
A mesma coisa dentro das relações de amizade, parentesco, profissional... Por vinculam as escolhas sexuais ao caráter?
A aprovação das leis são necessárias quando o comportamento social passa a exigir normas. As Leis nunca se antecipam! O Supremo veio apenas normatizar o que já está acontecendo, portanto, foi pelo zelo jurídico e pelo respeito às garantias de igualdade entre os cidadãos.
Beijus,

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Dani
16 de maio de 2011 07:51 delete

Minha amiga, ler esse texto só confirma que a inteligência e sensibilidade são atributos genuinamente seus! Muito obrigada pela sua amizade... Você é uma pessoa rara, querida e admirada! Um beijo enorme e parabéns pelo lindo blog.

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